Um estudo recente encomendado pela Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores (Abeifa) e conduzido pela Bright Consulting projeta que a participação de marcas de origem chinesa nas vendas de veículos no Brasil pode quase dobrar até 2030, passando dos atuais 10% para cerca de 18% do mercado total.
Segundo a Bloomberg Línea, a análise aponta que essa elevação decorre de um cenário global no qual várias regiões impõem restrições às montadoras chinesas, fazendo com que o Brasil se torne um destino estratégico para suas exportações. No resultado consolidado de 2025, as marcas associadas à Abeifa venderam 137,9 mil unidades, um crescimento de 31,7% sobre o ano anterior, com atores como GWM, Geely e a líder mundial em veículos eletrificados, BYD, ganhando destaque.
O aumento expressivo nas vendas foi impulsionado principalmente por modelos eletrificados, que representaram a maior parte dos emplacamentos no período. Esses veículos, além de atraírem consumidores interessados em novas tecnologias, ajudam a explicar o ritmo mais acelerado de expansão das marcas chinesas do que das concorrentes tradicionais, como Stellantis e Volkswagen.
Marcelo de Godoy, presidente da Abeifa, destacou a contribuição desses novos entrantes na transformação do segmento de elétricos no país: “As novas entrantes contribuem para o [avanço do] segmento não premium de elétricos”. Essa afirmação evidencia a crescente relevância de marcas chinesas fora do nicho premium, sobretudo em veículos com tecnologia eletrificada que combinam preço mais competitivo e inovações de uso cotidiano.
A BYD foi responsável por 81,8% das vendas totais das associadas à Abeifa em 2025, reforçando sua liderança e a concentração de participação de mercado dentro das empresas chinesas presentes no Brasil. Para 2026, espera-se que essa presença se torne ainda mais robusta, à medida que novos modelos sejam lançados pelas montadoras asiáticas.
Entre os fatores que ajudam a explicar essa tendência está a redução de alguns desafios relacionados à revenda de veículos eletrificados no mercado brasileiro. Conforme Godoy, “hoje, a desvalorização do carro elétrico já é similar à de modelos a combustão”, diminuindo uma das barreiras históricas à adoção desse tipo de veículo.
Além disso, o diretor de operações da Bright Consulting, Murilo Briganti, avalia que o setor automotivo brasileiro está passando por uma mudança estrutural no comportamento do consumidor. “A China se consolida como um player sistêmico, deixando de ser apenas uma tendência”, afirmou, destacando que a presença chinesa já não se restringe a uma participação marginal, mas pode vir a assumir papel central na dinâmica de adoção de novas tecnologias no país.
Dados da Bright Consulting também mostram que, em 2025, as marcas chinesas foram responsáveis por 25% das vendas globais de veículos, com participação ainda mais significativa em outros mercados latino-americanos como Chile (30%), Peru (33%) e México (16%). Essa penetração regional reforça a estratégia de expansão asiática na indústria automotiva global e sua capacidade de competir em segmentos emergentes.
Entre as variáveis que devem moldar o futuro da participação chinesa no Brasil estão fatores como o custo das baterias — que, segundo a análise, estaria caminhando para níveis abaixo de US$ 100 por kWh desde o final de 2025 — a escala de produção local, a previsibilidade regulatória relacionada a incentivos para veículos eletrificados e a resposta das marcas tradicionais às novas exigências do mercado.
Para a Abeifa, embora o crescimento no volume de importações de veículos continue sendo uma tendência, o mercado de carros importados pode registrar um ritmo mais moderado em 2026, em parte devido aos efeitos de juros elevados sobre financiamentos e à volatilidade cambial, que influenciam decisões de compra, especialmente entre consumidores que priorizam estabilidade financeira.



