A Meta iniciou nos Estados Unidos testes de um recurso de compras integrado ao Meta AI, chatbot da companhia, em um movimento que amplia a disputa com soluções como o ChatGPT, da OpenAI, e o Gemini, do Google. A iniciativa representa um passo mais claro da empresa para transformar interações com inteligência artificial em um ponto de entrada para o comércio eletrônico.
A funcionalidade, disponível para parte dos usuários da versão web do Meta AI, permite que o consumidor solicite sugestões de produtos diretamente na conversa com o chatbot. As recomendações aparecem em formato de carrossel, exibindo imagens, nome da marca, preço e o site do varejista, além de uma breve explicação sobre os critérios usados para a indicação. O processo de compra, no entanto, não ocorre dentro da ferramenta: ao selecionar um item, o usuário é redirecionado para o site do lojista.
A empresa confirmou que o recurso está em fase de testes, mas não detalhou como pretende monetizar a funcionalidade nem informou se haverá comissões por indicação de produtos ou priorização de marcas que anunciam nas plataformas da companhia, como Facebook e Instagram. A questão é considerada relevante, já que a publicidade responde pela maior parte da receita da empresa.
O experimento está alinhado à estratégia apresentada pelo CEO Mark Zuckerberg, que afirmou em teleconferência de resultados realizada em janeiro que a Meta pretende desenvolver produtos capazes de oferecer uma experiência “exclusivamente pessoal”, baseada no histórico e nos interesses do usuário. Nos testes iniciais, essa personalização já aparece nas recomendações: ao solicitar sugestões de jaquetas puffer, por exemplo, o sistema apresentou opções ajustadas à localização do usuário e a inferências de gênero a partir do nome.
Mais do que introduzir um novo mecanismo de busca, a Meta tenta alterar a forma como os consumidores descobrem produtos. Nesse modelo, a inteligência artificial atua como intermediária entre usuário e varejistas, interpretando contexto, preferências e dados comportamentais acumulados ao longo de anos de interações nas redes sociais da empresa.
Para Hygor Roque, Head of Revenue da Divibank, a mudança pode alterar a dinâmica da jornada de compra digital. “Estamos vendo a transição do search para o assistive commerce. A diferença é que o algoritmo deixa de responder apenas à intenção explícita e passa a antecipar necessidades com base em dados históricos. Isso aumenta a taxa potencial de conversão, mas também concentra poder de decisão na plataforma. Se a IA priorizar parceiros comerciais ou anunciantes sem deixar isso claro, teremos um problema de transparência. Por outro lado, se o modelo combinar relevância real com conveniência, pode reduzir fricção e encurtar drasticamente o funil de vendas”, afirma.
A movimentação da Meta ocorre em meio a uma corrida mais ampla entre grandes empresas de tecnologia para integrar funcionalidades de compra aos chatbots. Plataformas como ChatGPT e Gemini também vêm incorporando recursos voltados ao consumo, buscando transformar assistentes de inteligência artificial em hubs de serviços.
Nesse cenário, a vantagem competitiva da Meta pode estar na profundidade dos dados sociais disponíveis em seu ecossistema, que incluem informações de localização, páginas seguidas, interações e conexões entre usuários. Esses dados podem tornar as recomendações mais segmentadas e reforçar o papel da IA como intermediária na descoberta de produtos.
O teste indica que a disputa entre as big techs avança para uma nova etapa: além de responder perguntas, as plataformas buscam influenciar diretamente a decisão de compra. Caso a inteligência artificial se consolide como principal filtro de produtos, a curadoria algorítmica poderá redefinir a relação entre marcas, consumidores e plataformas no comércio eletrônico.



