A busca por eficiência energética em grandes edificações tem levado gestores de varejo, aeroportos, hospitais e centros logísticos a reverem estratégias tradicionais de climatização. Em um cenário de ondas de calor mais frequentes e tarifas de energia pressionadas, cresce a adoção de modelos baseados em zonas térmicas e ventilação sob demanda, tecnologias que ajustam temperatura e renovação de ar conforme o uso real dos espaços.
Dados da Empresa de Pesquisa Energética indicam que, em prédios comerciais e públicos no Brasil, os sistemas de aquecimento, ventilação e ar-condicionado podem representar entre 40% e 50% do consumo total de eletricidade, dependendo do perfil de operação. Isso coloca a climatização no centro das estratégias de redução de custos operacionais e de mitigação de impacto ambiental.
A tendência acompanha um movimento internacional. A Agência Internacional de Energia estima que a operação de edifícios responda por cerca de 30% do consumo final global de energia e por aproximadamente 26% das emissões relacionadas ao setor energético. Nesse contexto, a eficiência operacional deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a integrar o planejamento financeiro de empresas com grandes áreas climatizadas.
Zonas térmicas: ajuste fino da climatização
O conceito de zonas térmicas parte da segmentação de grandes ambientes em setores com controle independente de temperatura e vazão de ar. Em vez de tratar todo o edifício como um único espaço, o sistema responde às particularidades de cada área, considerando ocupação, horário e função.
Em um shopping center, por exemplo, corredores com menor circulação podem operar em patamares mais moderados, enquanto praças de alimentação e salas de cinema recebem reforço de climatização nos horários de pico. A mesma lógica se aplica a escritórios híbridos, galpões logísticos e hospitais, onde o fluxo de pessoas varia ao longo do dia.
Para Patrick Galletti, engenheiro mecatrônico, pós-graduando em Engenharia de Climatização e CEO do Grupo RETEC, a mudança exige uma visão mais estratégica da operação predial. “Muitos edifícios funcionam o dia inteiro como se estivessem em ocupação máxima. Isso eleva o gasto de energia e não garante conforto nos pontos críticos”, afirma.
Além do potencial de economia, o modelo contribui para reduzir conflitos relacionados ao desconforto térmico. Pesquisas internacionais sobre experiência no trabalho apontam que o controle inadequado da temperatura está entre os fatores que mais impactam a percepção de bem-estar e produtividade em ambientes corporativos — aspecto relevante para empresas que operam em modelo híbrido ou com alta rotatividade de equipes.
Ventilação sob demanda e qualidade do ar
Complementar às zonas térmicas, a ventilação sob demanda ajusta a renovação do ar de acordo com a ocupação efetiva do ambiente. O sistema utiliza sensores — principalmente de dióxido de carbono — como indicador indireto da presença de pessoas.
Em modelos convencionais, a ventilação opera em níveis fixos, dimensionados para lotação máxima. Isso significa movimentar, resfriar ou aquecer volumes elevados de ar externo mesmo quando o espaço está parcialmente vazio, ampliando o consumo energético.
Estudos do Departamento de Energia dos Estados Unidos mostram que sistemas com controle de ventilação por demanda podem gerar economias médias entre 10% e 20% no consumo energético associado à ventilação e à climatização, quando comparados a modelos baseados apenas em horários predefinidos. Pesquisas acadêmicas indicam que, em cenários específicos, os ganhos podem ser superiores, variando conforme clima, projeto e padrão de uso do edifício.
Além da conta de luz, a ventilação controlada impacta diretamente a qualidade do ar interno. Trabalhos científicos internacionais associam níveis elevados de dióxido de carbono à piora na percepção de conforto e no desempenho cognitivo, reforçando a importância do monitoramento contínuo em ambientes fechados com grande circulação de pessoas, como lojas, hospitais e terminais de transporte.
Diagnóstico e manutenção como ponto de partida
Antes de investir em novas tecnologias, especialistas recomendam mapear a ocupação por área e por horário, com base em dados de catracas, sistemas prediais e histórico de uso dos espaços. Revisar setpoints, vazões e estratégias de controle — muitas vezes mantidos desde a entrega da obra — pode revelar oportunidades imediatas de otimização.
A manutenção também desempenha papel decisivo na performance dos sistemas. Filtros saturados, sensores descalibrados e serpentinas comprometidas reduzem a eficiência e podem neutralizar parte dos ganhos esperados com a automação.
Segundo Galletti, a combinação de metas claras e monitoramento contínuo é determinante para resultados consistentes. “Zonas térmicas e ventilação sob demanda funcionam quando há metas claras de operação, como controle de dióxido de carbono, umidade e horários de uso bem definidos. O desempenho é ainda melhor quando essas estratégias são associadas ao uso de sensores modernos, permitindo que a demanda se ajuste à necessidade”, afirma.
Eficiência como estratégia operacional
Na prática, a implementação costuma ocorrer de forma gradual, priorizando áreas com maior variação de público, como auditórios, salas de evento, refeitórios e docas. A integração entre sensores, automação e rotinas operacionais tende a gerar resultados mais estruturais do que intervenções pontuais.



