O avanço tecnológico no mercado de eletroeletrônicos e eletrodomésticos aumenta não apenas a oferta de produtos mais conectados e eficientes, mas também a necessidade de preparar a cadeia para o descarte desses equipamentos. Com ciclos de substituição cada vez mais rápidos e produtos que combinam diferentes materiais e componentes, a logística reversa passa a precisar de estruturas capazes de acompanhar a velocidade da inovação.
Em análise publicada pelo Doc Management, a discussão sobre inovação costuma se concentrar nas funcionalidades incorporadas aos equipamentos e na experiência proporcionada ao consumidor. No entanto, o fim da vida útil também precisa fazer parte do desenvolvimento de um produto. Placas eletrônicas, sensores, diferentes tipos de plástico, metais e outros componentes presentes nos equipamentos atuais demandam processos específicos de desmontagem, triagem e recuperação.
Dados do Super Panorama Mobile Time/Opinion Box 2026 ajudam a dimensionar esse movimento. Segundo o levantamento, 43,1% dos consumidores afirmam que com certeza ou provavelmente comprarão um aparelho novo nos próximos 12 meses. Além disso, 22,7% dizem trocar de smartphone em até dois anos.
Para a cadeia de reciclagem, a consequência é o aumento da necessidade de receber equipamentos em diferentes momentos e com características que podem não existir nos produtos que eram descartados anteriormente. A estrutura de coleta e processamento, portanto, precisa evoluir junto com o mercado.
Um exemplo é o das air fryers. O equipamento passou a fazer parte do cotidiano dos consumidores brasileiros em um período relativamente recente e, conforme os primeiros aparelhos chegaram ao fim de sua vida útil em maior volume, foi necessário desenvolver caminhos para sua reciclagem. O processo mostra como a logística reversa precisa ser capaz de incorporar novas categorias à medida que elas ganham espaço nas residências.
Reciclagem acompanha evolução dos produtos
A adaptação da logística reversa é apenas uma parte da construção de uma economia circular. Para fabricantes, o conceito envolve todo o ciclo de vida do produto, começando ainda na fase de desenvolvimento. A definição dos materiais e do design pode facilitar a desmontagem, a separação dos componentes e o posterior reaproveitamento.
Nesse modelo, resíduos deixam de ser tratados apenas como materiais destinados ao descarte e passam a representar uma fonte potencial de novos recursos para a cadeia produtiva. A recuperação reduz a necessidade de utilização de matérias-primas virgens e ajuda a preservar o valor econômico dos materiais depois que o produto deixa de ser utilizado.
O mercado brasileiro já apresenta números que mostram a expansão desse modelo. Segundo dados do Movimento Circular, a economia circular movimentou cerca de R$ 70 bilhões no Brasil em 2025 e a projeção é chegar a R$ 100 bilhões em 2026.
A prática também já está presente em grande parte do setor industrial. Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), realizada em 2024 em parceria com o Centro de Pesquisa em Economia Circular da Universidade de São Paulo (USP), apontou que 85% das indústrias brasileiras desenvolvem pelo menos uma prática de economia circular.
A expansão, porém, depende de investimentos em infraestrutura, tecnologia e processos de reciclagem. Também envolve mudanças no próprio desenvolvimento dos produtos, especialmente para que equipamentos possam ser desmontados com maior facilidade e seus componentes sejam recuperados de maneira mais eficiente.
Estrutura precisa acompanhar novos produtos
O desafio para os operadores de logística reversa está justamente na velocidade dessa transformação. Novas categorias de produtos podem alcançar rapidamente uma grande base de consumidores e, anos depois, começar a chegar às estruturas de coleta em volumes significativos.
Isso exige capacidade de adaptação para identificar materiais, definir processos de triagem e estabelecer rotas adequadas para cada tipo de equipamento. O caso das air fryers mostra que nem sempre existe uma solução pronta para uma categoria que passa a fazer parte do mercado. Em determinados momentos, o próprio sistema precisa desenvolver o caminho de recuperação.
A mesma lógica pode se aplicar aos próximos equipamentos que chegarão às residências. À medida que a eletrônica embarcada aumenta e novos recursos de conectividade, automação e eficiência são incorporados, cresce também a variedade de materiais e componentes que precisarão ser separados e reaproveitados.
Nesse cenário, fabricantes, operadores de logística reversa, recicladores e demais participantes da cadeia precisam atuar sobre uma estrutura que não seja estática. A capacidade de incorporar novas categorias e atualizar processos torna-se parte da própria infraestrutura necessária para sustentar o avanço do setor.
Para a indústria, isso significa considerar a destinação dos equipamentos desde a concepção, e não apenas no momento em que eles são descartados. Projetar produtos pensando na desmontagem e no reaproveitamento pode facilitar as etapas posteriores e aumentar o potencial de recuperação dos materiais.
A evolução da economia circular, portanto, está relacionada tanto à criação de novos produtos quanto à capacidade de dar destino aos equipamentos que eles substituem. Com a renovação tecnológica mantendo o ritmo acelerado, a logística reversa precisa estar preparada não apenas para os aparelhos que já conhece, mas também para as próximas categorias que chegarão ao mercado.



