Com a expansão da inteligência artificial, a jornada de compra no e-commerce começa a incorporar uma nova camada de decisão. Em vez de depender exclusivamente da navegação do consumidor por lojas, buscadores e marketplaces, parte desse processo pode passar a ser mediada por agentes de IA, capazes de pesquisar produtos, comparar alternativas e considerar informações como preço, reputação e disponibilidade antes de apresentar uma recomendação.
A mudança abre uma nova frente de atenção para o varejo digital. Para a 87Labs, dados estruturados, avaliações verificadas, informações consistentes de catálogo e disponibilidade dos produtos passam a ter importância não apenas para a operação das lojas, mas também para a capacidade de os produtos serem encontrados, interpretados e considerados por sistemas de inteligência artificial.
Uma projeção da McKinsey indica que agentes de IA podem mediar entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões em comércio global de consumo até 2030. O cenário considera uma evolução do chamado comércio agêntico, no qual sistemas automatizados passam a apoiar ou executar diferentes etapas da jornada de compra.
A adoção da tecnologia pelo consumidor já aparece em levantamentos recentes. Pesquisa global do IBM Institute for Business Value, realizada em parceria com a National Retail Federation, apontou que 45% dos consumidores já utilizam IA em suas jornadas de compra. O estudo ouviu mais de 18 mil consumidores em 23 países, além de 200 executivos seniores dos setores de varejo, bens de consumo e e-commerce.
Outro levantamento, realizado pela Gartner com consumidores dos Estados Unidos, mostra que a participação da IA ainda ocorre principalmente como suporte à decisão. Segundo a pesquisa, 31% dos entrevistados aceitariam que ferramentas de IA reduzissem as opções de compra em itens domésticos, enquanto 28% fariam o mesmo para eletrônicos pessoais. Apenas 11% afirmaram que estariam dispostos a permitir que a IA tomasse decisões de compra em categorias consideradas de menor risco.
O cenário também interessa diretamente ao mercado brasileiro. De acordo com projeção da ABComm, o faturamento do comércio eletrônico no país deve chegar a R$ 259,08 bilhões em 2026 e alcançar R$ 344,83 bilhões em 2029.
Para Daniel Pisano, Head de Investimentos da 87Labs e CGO da Vurdere, a combinação entre a expansão do comércio eletrônico, o uso crescente da inteligência artificial na pesquisa de produtos e a evolução de plataformas preparadas para agentes automatizados exige mudanças na infraestrutura digital dos varejistas.
“O comércio digital está entrando em uma fase em que a loja precisa ser compreensível não apenas para pessoas, mas também para agentes de IA. A questão deixa de ser apenas atrair o consumidor para a loja e passa a incluir a capacidade de ser compreendido, comparado e recomendado por sistemas de inteligência artificial. Isso muda a forma como os varejistas devem tratar catálogo, avaliações e dados estruturados”, reforça o executivo.
Infraestrutura passa a fazer parte da estratégia
Um dos movimentos citados pela 87Labs está nas atualizações feitas pela Shopify entre abril e maio de 2026. A plataforma passou a estruturar recursos direcionados à interação entre lojas e agentes de inteligência artificial.
As mudanças acontecem na infraestrutura, e não em elementos como redesign das lojas, checkout ou ferramentas de marketing. A proposta envolve aspectos relacionados à maneira como agentes de IA descobrem lojas, acessam catálogos, analisam produtos e avançam em decisões de compra.
Entre os recursos estão arquivos de descoberta destinados a modelos de linguagem, protocolos de comunicação entre agentes e catálogos e mecanismos de autenticação para tráfego automatizado.
A estrutura dos dados ganha importância nesse ambiente porque agentes precisam interpretar as informações disponíveis nas lojas para realizar comparações. Catálogos incompletos, avaliações pouco integradas e dados inconsistentes podem dificultar essa leitura e afetar a presença dos produtos em processos automatizados de pesquisa e recomendação.
Do SEO ao AEO no comércio eletrônico
A ascensão dos agentes também modifica a discussão sobre otimização no ambiente digital. Durante mais de duas décadas, o Search Engine Optimization (SEO) concentrou esforços na presença de páginas nos mecanismos de busca e na geração de cliques.
Com o comércio agêntico, ganha espaço o conceito de Agent Experience Optimization (AEO), voltado à forma como agentes automatizados acessam e interpretam as informações disponíveis no ambiente digital.
A diferença está no papel desempenhado pela tecnologia durante a jornada. Em uma busca tradicional, o mecanismo apresenta uma série de resultados e o consumidor decide quais páginas acessar. Em uma interação mediada por um agente de IA, o sistema pode comparar produtos, considerar avaliações, verificar disponibilidade e selecionar alternativas antes de apresentar uma recomendação.
Nesse modelo, estar visível deixa de ser a única preocupação. A estrutura das informações também passa a determinar a capacidade de um produto ser compreendido e comparado pelos sistemas que participam da jornada de compra.
Para os varejistas, a 87Labs recomenda começar pela auditoria da infraestrutura digital existente, considerando a preparação dos catálogos, a organização dos dados e a integração das informações que podem ser utilizadas por agentes de inteligência artificial.



