O varejo brasileiro aparece entre os setores mais pressionados por riscos de burnout, em um cenário de aumento dos problemas de saúde mental no ambiente corporativo. Segundo relatório da Gupy, 7 em cada 10 trabalhadores já apresentam algum nível de risco psicossocial, com destaque para segmentos como Varejo e Atacado, Educação e Marketing/Comunicação.
Os dados fazem parte do estudo “NR-1 do compliance à alta performance”, apresentado durante o HR4Results 2026, em São Paulo, e refletem o impacto das mudanças recentes na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que amplia a responsabilidade das empresas na gestão de riscos relacionados ao trabalho — incluindo estresse, sobrecarga e esgotamento profissional.
Pressão estrutural no varejo
No recorte por setor, o varejo lidera os índices de risco de burnout, com 10,79%, à frente de áreas como Educação (9,87%) e Marketing/Comunicação (9,67%). O dado reforça um cenário já conhecido pelo mercado: operações intensivas, alta rotatividade e contato direto com o consumidor ampliam a exposição dos trabalhadores a jornadas desgastantes e pressão constante por desempenho.
Outros segmentos com níveis elevados incluem Hotelaria e Restaurantes (9,55%) e Setor Público/ONGs (9,14%). Já áreas como Indústria (5,40%) e Tecnologia apresentam índices mais baixos, embora ainda relevantes.
A leitura do estudo indica que o risco não está restrito a um perfil específico de empresa. Entre organizações de diferentes portes, os níveis de risco psicossocial permanecem elevados: 58,7% nas pequenas, 53,6% nas médias, 58,9% nas grandes e 45,9% em empresas com mais de mil funcionários.
Saúde mental entra na agenda do negócio
O avanço dos casos de afastamento por questões psicológicas reforça a dimensão do problema. Dados do INSS mostram que benefícios concedidos por transtornos mentais e comportamentais saltaram de pouco mais de 200 mil em 2021 para mais de 540 mil em 2025. Apenas entre 2022 e 2024, a alta estimada foi de cerca de 134%.
No varejo, esse cenário tem impacto direto na operação. Ambientes com alta rotatividade e forte pressão por metas tendem a amplificar custos indiretos, como absenteísmo, presenteísmo e queda de produtividade — fatores que representam entre 70% e 90% do impacto financeiro total desses riscos, segundo o estudo.
Assédio e subnotificação agravam o cenário
Além do burnout, o relatório aponta níveis relevantes de risco relacionados a assédio no ambiente de trabalho. No varejo e atacado, o índice chega a 6,93%, posicionando o setor entre os mais afetados.
O estudo também chama atenção para a subnotificação dos casos. Embora 35% das mulheres relatem ter sofrido assédio sexual, apenas 10% recorreram a canais formais dentro das empresas. Entre os principais motivos estão a percepção de ineficácia dos canais (55,7%), medo de exposição (55,3%) e receio de retaliação (41,8%).
O reflexo aparece também na Justiça do Trabalho, onde ações relacionadas a assédio sexual cresceram 35% entre 2023 e 2024.
De compliance à gestão estratégica
Com a atualização da NR-1, empresas passam a ter papel mais ativo na identificação e prevenção desses riscos. O relatório da Gupy propõe um modelo estruturado de gestão de riscos humanos, com foco em diagnóstico baseado em dados, definição de prioridades e monitoramento contínuo.
“A NR-1 acelera uma mudança estrutural: o cuidado com saúde mental, combate ao assédio e organização do trabalho começam a fazer parte da governança do negócio. Mais do que cumprir uma exigência regulatória, as empresas precisam transformar dados e gestão em ferramentas para prevenir riscos, melhorar a experiência do colaborador e impulsionar resultados. O passo adiante é transformar compliance em gestão, com prioridades claras, responsáveis e resultados mensuráveis”, afirma Mariana Dias, cofundadora e CEO da Gupy.
“Traduzimos a norma em prática. O relatório combina dados do setor com um guia prático para as empresas agirem: identificando áreas críticas, capacitando líderes e monitorando resultados reais.É assim que o compliance vira performance”, completa a executiva.



