reciclagem

Se, de um lado, os diferentes devices exponenciam as oportunidades do mercado, o outro lado da moeda é o crescimento do volume de lixo eletrônico em todo o mundo. O também chamado e-lixo é um risco à saúde e ao meio ambiente e tem aumentado cinco vezes mais rápido do que a reciclagem, de acordo com o Monitor Global de Resíduos Eletrônicos, das Nações Unidas.

Apenas em 2022, foram produzidos 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico, 82% a mais do que em 2010. Além disso, o Brasil é o maior produtor de resíduos da América do Sul e está entre os cinco primeiros do mundo. Foram 2,4 milhões de toneladas geradas em 2022, mas só 3,3% desse total foram coletados e reciclados formalmente.

Os dados se tornam mais alarmantes com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010), o marco regulatório que obriga empresas a implementarem sistemas de logística reversa e garantirem o destino ambientalmente correto dos resíduos. O não cumprimento acarreta multas e processos, perda de certificações, barreiras comerciais e danos à imagem.

Fruto desse desafio, nasceram projetos que visam suprir demandas de comunidades carentes que poderiam se beneficiar de equipamentos que já não são úteis para grandes companhias. “Quase 60% dos equipamentos conseguem ser reinseridos no mercado e ainda têm uma expectativa de vida de aproximadamente seis anos. Ou seja, são quatro anos em alto rendimento e mais seis anos funcionando super bem”, revela Bruno Gomes, CEO da BTB Soluções.

O executivo conta que os projetos de reaproveitamento de equipamentos tecnológicos surgiram no começo da pandemia, quando uma grande farmacêutica precisava descartar cerca de 600 máquinas. Ao invés de reciclar ou descartar o material, a BTB organizou o que o próprio executivo chama de Frankenstein, com, por exemplo, a tela de um notebook e o teclado de outro. No fim, o projeto entregou 120 notebooks para um instituto que atende crianças carentes. Hoje, a companhia tem três meses de fila de clientes que querem fazer projetos como esse.

Alessandro Dinelli, fundador da empresa Descarte Correto e do Instituto Descarte Correto, conta que seu projeto começou há 25 anos, quando viu jovens querendo trabalhar em uma outra empresa que ele tinha, mas sem saber usar um mouse ou um teclado. Ele, então, decidiu criar centros de inclusão digital na periferia de Manaus e no interior do Amazonas.

“Hoje, nós recuperamos computadores, tablets, notebooks, impressoras. Nós temos dois programas com foco em inclusão digital, inclusão produtiva e educação ambiental. No Instituto, recebemos principalmente materiais de informática que vêm de órgãos públicos e são recuperados para formar centros de inclusão sustentáveis. Nós já doamos de 1.300 a 1.400 computadores nos últimos anos”, revela ele.

O segundo projeto faz parte da área empresarial e é focado em jovens que estudam, mas não têm a oportunidade de comprar seus próprios equipamentos. Nesses casos, eles podem comprar o dispositivo por um valor mais acessível.

Já a BTB se especializou no reaproveitamento de dispositivos móveis, como smartphones, tablets, notebooks e desktops. A escolha do destino da doação depende do cliente, sendo elegível pela própria companhia ou pelo terceiro.

“Nós apoiamos por volta de 10 ONGs. São organizações que dão apoio às comunidades onde elas estão, seja um centro de reabilitação ou até centros de estudos após o horário escolar”, diz Gomes.

O impacto permeia diversos setores da sociedade. No caso da Descarte Correto, desfrutam dos projetos desde crianças e jovens até os adultos de comunidades ribeirinhas, comunidades quilombolas e indígenas.

“O nosso principal impacto é gerado por meio dos laboratórios nas comunidades mais remotas da Amazônia. Por exemplo, nós doamos 16 computadores para um município chamado São Gabriel da Cachoeira, na fronteira com a Colômbia”, informa Dinelli.

Dentro do Brasil

Por outro lado, ter um País de dimensões continentais implica projetos que não conseguem olhar para todas as regiões. Para tentar suprir essas demandas, surgem iniciativas como o Instituto Paramitas, que, entre 2022 e 2023, realizou o Multi Educa, projeto com redes públicas de ensino para o uso consciente de tecnologia.

“Saber usar corretamente, cuidar, preservar, fazer manutenção básica e prolongar a vida útil dos dispositivos foi a nossa primeira conversa, porque isso reduz custo, reduz impacto ambiental e cria a cultura de responsabilidade nos bens públicos e comunitários”, frisa a professora Claudia Stippe, diretora de inovação e parcerias do Instituto.

A especialista se orgulha, também, do projeto PROFuturo, apoiado pelo Instituto, que começou em 2017 com a entrega de equipamentos para as redes públicas de ensino de Sergipe e de Pernambuco. São escolas da área rural, sem acesso à internet, que, até hoje, usam os mesmos equipamentos.

“Para mim, esse é um case porque são muitos equipamentos que foram doados para essas secretarias municipais, e nós, enquanto parceiros executores, entendíamos que era muito importante ter uma rede, um suporte que desse conta de fazer tanto a manutenção preventiva quanto a manutenção básica para prolongar a vida desses dispositivos. São, no mínimo, 600 notebooks, cada um com 35 tablets, mais um roteador de internet, mais um projetor de tela”, comemora ela.

Ainda assim, segundo Claudia, não há muitas oportunidades para trabalhar com o reaproveitamento de equipamentos. De acordo com ela, é necessário que as secretarias entendam que não basta separar o lixo, mas ajudem a dar destino a esses lixos eletrônicos. É preciso criar esses espaços e ter essa destinação. E isso é política pública.

“O que eu estou tentando construir é uma narrativa diferente: tecnologia não como um consumo, mas como responsabilidade. Não como descarte, mas como cuidado. Eu posso ficar com um celular 3, 4 anos. E eu acho que existe um apelo comercial muito grande. Tecnologia com consciência é o que estamos construindo aqui”, finaliza ela.

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