Gisselle Ruiz Lanza: propósito, carreira e maternidade

Gisselle Ruiz Lanza

Gisselle Ruiz Lanza, general manager da Intel Latam, concilia uma rotina intensa de liderança com a maternidade de dois filhos em fases muito diferentes da vida, um rapaz de 19 anos de idade e uma menina de oito anos. Com quase três décadas de experiência em tecnologia, ela fala sobre como organiza o dia a dia, os produtos que a ajudam a manter a produtividade e as lições que a maternidade trouxe para sua forma de liderar.

Na entrevista a seguir, a executiva também comenta os desafios de equilibrar carreira e família, o papel da tecnologia nesse processo e a importância de redes de apoio e propósito para mulheres que desejam ocupar posições de liderança.

Quais produtos você considera indispensáveis na sua rotina como mãe e profissional?

Definitivamente, para ter uma rotina de equilíbrio, para o trabalho, eu uso muito meu computador e meu celular. Estou conectada praticamente o tempo todo, fora os momentos em família, em que eu tento desconectar. Eu faço bastante esporte, e o meu relógio Garmin me acompanha para tudo quanto é lugar, assim como os fones de ouvido.

Na Intel, temos um portfólio completo de IA e estamos lançando a terceira geração de PCs pensados para uma experiência completa. O que é interessante é que a gente não tem uma faceta só, a gente tem várias necessidades durante o dia, a semana, o mês. Eu tenho um PC de tela pequena e leve para levar para todos os lugares, porque eu viajo muito. E esse computador precisa me acompanhar na rotina pessoal também. Então ele é leve, fino e é estiloso, mas também tem muito desempenho. E ele está habilitado para todas as experiências de IA, desde o Copilot, que eu uso também, até muitos outros casos de uso no dia a dia.

Parte do que a gente lançou na CES é justamente não ter que escolher entre uma coisa ou outra: o computador pode ser de longa duração e, ao mesmo tempo, pode ter o desempenho que você precisa e as capacidades que precisa.

Você enxerga oportunidades no varejo para produtos ou serviços que realmente facilitem a vida das mães? Alguma tendência que chamou sua atenção?

Com certeza. Eu acho que passa muito pela experiência de uso. Eu preciso levar a rotina de dois filhos muito diferentes, ver os apps das escolas, ao mesmo tempo em que preciso ser produtiva no meu dia a dia de trabalho. Os equipamentos têm um papel importante, mas o software que é desenvolvido precisa ter um ótimo casamento com o hardware.

Quando falamos de PC com IA é esse casamento. O hardware tem que permitir novos casos de uso, novas experiências, mas eu acredito que vão surgir muitas aplicações que vão ajudar a atuar como mãe e profissional.

Eu, por exemplo, vou guardando matérias, podcasts para dias em que eu tenha várias demandas e não consigo ver na hora, mas vou salvando, seja em aplicativos como o Spotify, e em momentos em que eu tenho espaço, ouço. Eu corro, gosto muito de caminhar, faço esportes, então aproveito os momentos da corrida para ouvir notícias.

Eu sou bastante curiosa e, muitas vezes, preciso me atualizar com algumas coisas até dos meus filhos. As escolas mandam conteúdos mais inspiracionais para os desafios na era digital com adolescentes, por exemplo.

Como a maternidade mudou a sua visão sobre liderança e tomada de decisão no varejo?

Mudou de várias maneiras e também com diferentes nuances na primeira e na segunda maternidade. Meu primeiro filho nasceu quando eu tinha 29 anos, eu tinha acabado de chegar ao Brasil, não tinha uma rede de apoio tão estruturada, não conhecia tanto o Brasil e, para mim, foi muito importante desenvolver essa rede de apoio.

Também me ajudou do ponto de vista de organização, porque, estando sozinha, eu acordava cedo, preparava as coisas, deixava meu filho na escola, ia para o trabalho. A Intel tinha um espaço de amamentação. Mas eu precisei ter muito mais noção de priorização, disciplina e de pedir ajuda. Eu acho que esse é um aspecto de liderança muito grande: mostrar e ter vulnerabilidade, ser muito autêntica e entender a importância de ter uma rede tanto na empresa quanto fora.

Além de toda a disciplina que você precisa na vida profissional, precisa na maternidade. A Clara nasceu uns dias depois do meu aniversário de 40 anos e, para mim, vieram muito mais fortes questões como propósito, a importância de devolver à sociedade muito do que eu tive. Comecei a me engajar até em questões de diversidade e inclusão.

Eu tenho muito o aspecto de liderança de ouvir com intenção, de atuar com o feedback das pessoas. Eu tenho um estilo de liderança bastante humanizado. Eu acredito que criar um ambiente plural e saudável, onde as pessoas se sentem parte e conseguem ser quem elas realmente são e colaborar, cria um ambiente muito mais saudável para o crescimento da companhia e para a inovação.

Essa segunda maternidade trouxe muito mais esse aspecto de propósito, de buscar retornar para a sociedade, que eu levo também para o meu estilo de liderança e as minhas decisões de liderança.

Quais foram os maiores desafios de conciliar maternidade com a presidência de uma empresa, e como você superou esses obstáculos?

São desafios constantes. No meu ver, não é linear: tem momentos mais desafiadores do lado pessoal e da maternidade e outros no próprio ambiente profissional, seja nas fases em que eu mudei de função e tive que sair da minha área de conforto.

Houve momentos em que eu tive muitas viagens. Logo que eu voltei da licença maternidade, eu voltei com esse propósito de ter mais impacto na Intel, nas pessoas, nos negócios. De alguma maneira começou essa vontade de crescimento. Crescimento é aprender, é sentir que estou me desenvolvendo.

Eu ativei toda a minha rede de apoio para deixar claro que eu estava pronta para crescer e, quando a gente quer muito algo e é consistente com o que quer, as coisas acontecem.

Pouco tempo depois chegou um convite. Eu era diretora no Brasil, mas estava no plano de sucessão do gerente-geral do Brasil. Então me convidaram para cobrir por três meses quem liderava uma boa parte da América Latina e Canadá e que era responsável por todos os negócios, o presidente dessa região.

Quando me chamaram, o chefe do meu chefe me ligou para fazer esse convite. Eu falei sim na hora. Cheguei em casa e fiquei me perguntando o que eu fiz, com uma filha pequena e um adolescente, tendo que viajar muito. Mas pensei: é isso que eu quero. Meu marido me apoiou.

Eu estava treinando para minha segunda maratona. Treinei literalmente cada semana em uma cidade. Foi o período em que eu mais aprendi profissionalmente, mais cresci, mas eu realmente fiquei esgotada. Eu tinha um propósito muito claro e era um esforço em um momento pontual.

Quando eu estava voltando de Miami, quando eu entreguei o cargo de volta, eu desmaiei no aeroporto de cansaço, mas valeu a pena. Valeu a pena porque me fortaleceu muito. As pessoas ao meu redor me ajudaram nos momentos em que eu não me sentia preparada.

E quando eu ia sair de férias, a pessoa me ligou e disse: sei que você está de férias, mas preciso de você para assumir o Brasil. Eu participei do processo seletivo e foi muito bom porque eu já me sentia muito preparada, e meus pares também sentiam que eu estava mais preparada.

Liderar o Brasil foi a experiência mais bonita que eu tive de carreira. Foi incrível. A gente teve resultados impressionantes de números e de cultura.

Eu acho que cada vez que a gente busca esses crescimentos tem custo, mas quando o que a gente faz conversa com o que a gente quer, com o nosso propósito, faz sentido.

Eu procuro ter muito autoconhecimento daquilo que me tira e do que me enche de energia. Para mim, o esporte é importante, me ajuda mentalmente, é meu momento comigo mesma, muitas vezes é o momento de ter ideias.

Eu busco ter uma rotina que me deixa mais em equilíbrio, mas cada decisão que a gente toma tem vantagens e custos que precisamos assumir. O autoconhecimento, a disciplina, a rede de apoio, ter muito claro o que a gente quer e por quê, e ser consistente com isso, têm me ajudado a ter um certo equilíbrio.

Você percebe mudanças no comportamento das mães consumidoras? Como o seu negócio se adaptou ou poderia se adaptar a essas demandas?

Tem vários números que eu lembro de cabeça. Eu trabalho com tecnologia há quase 30 anos e, evidentemente, o mercado como um todo mudou bastante. Mas ainda tem muito espaço.

A pandemia também mostrou certos desafios, certos gaps. A gente precisa avançar muito mais. Ainda mulheres CEOs, quando olhamos as grandes empresas, não chegam a 20%. Mulheres em tecnologia também estamos falando entre 28% e 30%. Ainda tem muito menos mulheres em tecnologia do que até precisaria o mundo.

O Brasil teria um crescimento de PIB enorme se tivéssemos mais mulheres no mercado de trabalho. E quando olhamos os próximos cinco ou dez anos, com o avanço das tecnologias emergentes, como IA e cloud computing, vamos precisar de mais profissionais em tecnologia.

Então, se não estimulamos e apoiamos em todo o ciclo, desde as meninas que vão pensar o que vão estudar até que entrem e concluam os estudos e tenham um ambiente de trabalho que valorize, não vamos conseguir avançar do jeito que o mundo precisa.

Tecnologia hoje é o impulsionador do negócio. Então precisamos avançar. Eu vejo isso até no nosso ecossistema.

Eu tive a sorte de trabalhar em uma empresa que sempre teve muita consistência do lado de inclusão e diversidade. Não tive problema de estar grávida, ser mãe não me limitou. Desde que minha filha nasceu, minha carreira só acelerou. Mas temos questões para resolver.

Hoje tem muitos indicadores que mostram que a mulher deixa o ambiente de trabalho por questão de maternidade, o que não está certo nem errado. A mulher tem muita demanda, que não é só física, mas é mental também.

Temos que ter consciência e consistência para ter mais diversidade, mais mulheres, e pensar em como ter um trabalho flexível para as mães.

Que conselho você daria para outras mães que desejam ocupar posições de liderança, conciliando carreira e maternidade sem abrir mão de nenhuma das duas?

Ter bons mentores, ter referências, ter redes de apoio, porque ninguém chega sozinho.

E, de novo, investir em autoconhecimento, porque quando estamos consistentes com o que acreditamos e com o nosso propósito, as coisas costumam ser mais fluidas.

E nunca perder a curiosidade, isso é o que nos permite evoluir.

E, para mim, formar times bons, grupos fortes, times de alta performance também me ajudou, porque ninguém faz nada sozinho. Eu sempre coloco pessoas que me complementam ao meu redor e isso me ajuda a ter mais equilíbrio.

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