Juros altos pesam sobre varejo e confiança do consumidor

varejo brasileiro

O varejo brasileiro apresentou desempenho desigual em agosto, enquanto a confiança do consumidor registrou a quarta queda consecutiva. Os dados do IGet, índice desenvolvido pela Getnet em parceria com o Santander, mostram avanço de 0,4% no varejo ampliado ante julho, mas retração de 0,4% no varejo restrito. No mesmo período, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC), calculado pelo FGV IBRE, caiu 3,6 pontos, para 84,7 pontos, menor nível desde novembro de 2022.

Levantamento repercutido pelo E-commerce Brasil mostra que o cenário indica uma atividade ainda marcada por movimentos distintos entre os segmentos. No varejo ampliado, agosto representou o segundo mês seguido de crescimento, embora o resultado não tenha sido suficiente para recuperar a queda observada em junho. Na comparação com agosto de 2025, o indicador apresentou retração de 2%.

Já o varejo restrito, que exclui segmentos como veículos e materiais de construção, teve queda mensal de 0,4%. Em 12 meses, o recuo chegou a 10,1%, com resultados negativos em algumas das principais categorias acompanhadas pelo IGet.

Supermercados registraram retração de 0,8% em agosto, enquanto artigos farmacêuticos caíram 0,9%. Móveis e eletrodomésticos tiveram queda mais acentuada, de 3,2%. Outros artigos de uso pessoal apresentaram a maior retração entre as categorias do varejo restrito, com baixa de 5,9%.

Na direção oposta, o segmento de vestuário avançou 5,2% no mês, enquanto as vendas de combustíveis cresceram 1,1%. No varejo ampliado, materiais de construção tiveram alta de 2,4%, e automóveis, partes e peças registraram crescimento de 1,5%.

Serviços recuperam parte da atividade

O setor de serviços apresentou uma recuperação mais expressiva em agosto. O indicador do IGet cresceu 3,4% em relação a julho, retornando para um nível próximo ao registrado em maio, antes da retração observada em junho.

O avanço foi sustentado pelos dois segmentos acompanhados na abertura do indicador. Alojamento e alimentação cresceram 2,7%, enquanto outros serviços prestados às famílias tiveram alta de 1,8%.

Com os resultados positivos de julho e agosto, o setor praticamente compensou a perda registrada em junho. Ainda assim, na comparação anual, o indicador de serviços acumula retração de 1,6%.

A análise que acompanha o levantamento aponta que os juros elevados podem continuar limitando o desempenho dos serviços prestados às famílias durante o segundo semestre. A perspectiva também considera uma política monetária contracionista e a perda de força dos estímulos fiscais iniciados no primeiro trimestre de 2026.

Confiança do consumidor cai pelo quarto mês

O ambiente de consumo também aparece pressionado no levantamento do FGV IBRE. O ICC recuou pelo quarto mês consecutivo em agosto e chegou a 84,7 pontos. Na média móvel trimestral, o indicador caiu 1,4 ponto, para 87,2 pontos.

“A quarta queda seguida da confiança dos consumidores sinaliza uma piora no humor das famílias com relação à economia”, afirma Anna Carolina Gouveia, economista da FGV responsável pelo levantamento.

Segundo a economista, o resultado está relacionado tanto a uma percepção mais negativa sobre a situação atual quanto à piora das expectativas para os próximos meses.

Os dois componentes do ICC recuaram. O Índice de Situação Atual (ISA) caiu 0,6 ponto, para 83,8 pontos, enquanto o Índice de Expectativas (IE) teve queda de 5,4 pontos, para 86,1 pontos, menor nível desde julho de 2022. O movimento foi observado entre consumidores de diferentes faixas de renda.

A percepção sobre a situação financeira futura das famílias também piorou. O indicador caiu 4,6 pontos, para 82,9 pontos, menor patamar desde agosto de 2025.

Bens duráveis concentram maior queda

A intenção de compra de bens duráveis foi o componente que mais perdeu força em agosto. O indicador recuou 10 pontos, para 74,7 pontos, menor resultado desde julho de 2022. A categoria inclui produtos como móveis e eletrodomésticos, segmentos que também registraram queda no varejo restrito durante o mês.

A avaliação sobre a situação econômica local nos próximos meses teve retração menor, de 0,6 ponto, chegando a 103,3 pontos.

De acordo com a FGV, o comportamento da confiança está relacionado à situação financeira das famílias, que segue marcada por níveis elevados de endividamento e inadimplência, além do impacto dos juros altos sobre o consumo.

O ambiente também acompanha outros indicadores de crédito. Dados do Banco Central apontam expectativa de avanço da inadimplência, enquanto a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC, registrou em julho o maior percentual de famílias endividadas da série.

Apesar da melhora registrada nos serviços e dos dois meses consecutivos de crescimento do varejo ampliado, os dados de agosto mostram um cenário de consumo ainda pressionado. A combinação entre queda do varejo restrito, menor intenção de compra de bens duráveis e deterioração da confiança ocorre em um contexto de juros elevados, desaceleração do consumo das famílias e menor impulso dos estímulos fiscais.

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