Escassez de talentos ameaça avanço tecnológico do varejo

transformação tecnológica do varejo

A transformação tecnológica do varejo está aumentando a procura por profissionais especializados em inteligência artificial, ciência de dados e analytics. Ao mesmo tempo, empresas enfrentam dificuldades para encontrar e desenvolver essas competências, criando um novo obstáculo para a modernização de operações, lojas e canais digitais.

Segundo o estudo global The Retail CXO Outlook — Roadmap to 2030, 76% dos executivos do varejo apontam IA, ciência de dados e advanced analytics como a principal lacuna de talentos do setor. Apenas 11% afirmam possuir profissionais suficientes nessas áreas para sustentar essas capacidades em escala empresarial.

O levantamento ouviu 336 executivos C-level do varejo e foi produzido pela Incisiv e pelo World Retail Congress, em parceria com a Manhattan Associates.

Para Danielle Willig, gerente de Desenvolvimento de Mercado para a América Latina da Manhattan Associates, a transformação exige mais do que a implementação de novas ferramentas.

“Os varejistas estão conectando cada vez mais lojas, e-commerce, estoques, fulfillment e cadeia de suprimentos. Isso exige tecnologia integrada, mas também profissionais preparados para interpretar informações e transformar dados em decisões operacionais.”

Tecnologia precisa ser acompanhada de capacitação

A expansão do uso de dados modifica também o perfil dos profissionais envolvidos na operação. Planejamento, supply chain, operações de loja, comércio eletrônico e fulfillment passam a depender de sistemas mais integrados e de um volume maior de informações para tomar decisões.

Nesse cenário, a facilidade de utilização das plataformas ganha importância. Quanto mais complexa for a tecnologia, maior tende a ser a necessidade de treinamento e adaptação das equipes.

A Manhattan Associates defende que soluções tecnológicas devem reduzir essa barreira, com interfaces mais intuitivas, onboarding simplificado e menor curva de aprendizado. “Não podemos partir do princípio de que tecnologias cada vez mais avançadas precisam ser também mais complexas para quem as utiliza no dia a dia”, afirma Danielle.

A questão, portanto, não está apenas em contratar especialistas em IA e dados. O desafio também envolve preparar profissionais de outras áreas para utilizar essas ferramentas na rotina e transformar informações em decisões práticas.

Estrutura organizacional também limita a transformação

A disponibilidade de talentos, porém, não resolve sozinha o problema. O estudo aponta que 71% dos executivos consideram que suas organizações não conseguem se movimentar mais rapidamente do que os concorrentes.

Isso revela um segundo obstáculo: empresas podem ter tecnologia e profissionais qualificados, mas continuar perdendo velocidade por causa de processos fragmentados, sistemas desconectados e estruturas organizacionais pouco integradas.

Quando departamentos trabalham com informações diferentes ou enxergam apenas uma parte da operação, a tomada de decisão tende a ficar mais lenta e complexa.

Para Danielle, a transformação precisa ocorrer simultaneamente em tecnologia e processos: “Não se trata simplesmente de substituir uma ferramenta por outra. O ganho acontece quando a tecnologia permite que diferentes áreas trabalhem de forma mais coordenada e tenham uma visão comum do que está acontecendo com o consumidor, o estoque e a operação.”

Integração entre lojas e canais digitais ganha importância

A necessidade de integração também aparece na relação entre operações físicas e digitais. 80% dos executivos entrevistados consideram necessária uma integração fluida entre esses dois ambientes.

Na prática, isso significa reduzir os silos entre lojas, e-commerce, estoque, logística e fulfillment. O objetivo é fazer com que diferentes áreas trabalhem sobre uma base comum de informações e consigam responder mais rapidamente às mudanças na demanda.

A tendência indica que a próxima etapa da transformação digital do varejo dependerá menos da simples aquisição de novas tecnologias e mais da capacidade das empresas de combinar IA, dados, pessoas e processos.

Nesse contexto, a disputa por talentos tende a continuar, mas empresas que conseguirem simplificar suas ferramentas, capacitar equipes e integrar suas operações poderão extrair mais valor das tecnologias disponíveis — mesmo diante da escassez de especialistas.

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