Do conforto ao silêncio: os movimentos que estão redesenhando o design

Talvez uma das mudanças mais interessantes do design contemporâneo não esteja em uma cor, uma forma ou um novo material.

Está na maneira como queremos viver.

Depois de anos marcados por velocidade, excesso de estímulos e presença digital constante, interiores e objetos começam a responder a outro desejo: permanecer, desacelerar, tocar, ouvir, ler e prestar atenção.

É essa mudança que aparece nos seis movimentos reunidos pela designer e diretora criativa Bruna Horn após sua passagem pela Milan Design Week 2026.

Com atuação entre Miami, São Paulo e Milão, Bruna observa que os espaços estão deixando de ser pensados prioritariamente para causar impacto visual imediato.

“Os ambientes não são mais projetados apenas para serem vistos, mas para serem habitados por longos períodos, privilegiando experiências de acolhimento, desaceleração e conforto extremo”, afirma.

Conforto também é linguagem de luxo

O primeiro movimento passa justamente pelo corpo.

Sofás mais profundos, volumes generosos e peças que convidam à permanência colocam o conforto no centro do projeto.

O luxo, nessa perspectiva, deixa de depender somente da raridade de um material ou da imponência de um objeto. Ele também passa a ser percebido pela sensação proporcionada pelo ambiente.

Entre as referências observadas pela designer estão trabalhos de Patricia Urquiola para a Cassina e o sofá Butter, de Faye Toogood para a Tacchini.

Essa mesma procura por bem-estar aparece em outro movimento apontado por Bruna: a valorização da presença real.

Em um cotidiano organizado por notificações, os ambientes começam a criar condições para o contrário.

Conversar, ouvir música, permanecer em silêncio ou simplesmente não olhar para uma tela ganham novamente importância.

As listening rooms vistas em Milão são um bom exemplo. Sistemas analógicos de alta fidelidade, discos de vinil e espaços dedicados à escuta devolvem certo ritual a uma atividade que a tecnologia havia tornado praticamente instantânea.

O design começa, assim, a participar também da administração da atenção.

Hospitalidade, livros e natureza

Outro movimento importante está na aproximação entre design e hospitalidade.

Galerias, showrooms e instalações passam a incorporar características de hotéis e espaços de convivência, convidando o visitante a permanecer em vez de apenas circular.

O Nilufar Grand Hotel, apresentado durante a Milan Design Week, levou essa ideia diretamente para dentro da Nilufar Depot ao reinterpretar a galeria a partir da linguagem de um hotel.

Há ainda um retorno inesperadamente interessante dos livros.

Na Reference Library, projeto da Apartamento com a Jil Sander, uma biblioteca temporária reuniu publicações escolhidas por diferentes nomes da cultura contemporânea. Os visitantes recebiam luvas brancas e eram convidados a pegar, abrir e ler os exemplares.

A Miu Miu também retomou seu Literary Club em Milão.

Não parece coincidência.

Em meio à disponibilidade quase infinita de conteúdo digital, dedicar tempo a um livro físico volta a adquirir significado.

A natureza segue a mesma lógica.

Madeira, pedra, vegetação e luz natural deixam de aparecer somente como escolhas estéticas e passam a ser incorporadas aos projetos pela sensação que provocam.

Na Milan Design Week, a Molteni&C apresentou Responsive Nature, instalação construída como uma sequência de jardins e ambientes que aproximavam design e paisagem.

O retorno dos sentidos

O sexto movimento observado por Bruna Horn talvez ajude a conectar todos os anteriores.

A memória sensorial ganha importância.

Fragrância, textura, som, temperatura e materialidade ampliam a experiência para além daquilo que pode ser fotografado.

Na instalação Transformism, apresentada pela Clive Christian em colaboração com Harry Nuriev, um tabuleiro de xadrez em escala humana transformou elementos ligados ao universo da perfumaria em uma experiência espacial.

É uma mudança significativa para uma época em que boa parte dos ambientes passou a ser avaliada pela capacidade de produzir uma boa imagem.

O que começa a ganhar valor talvez seja justamente aquilo que uma fotografia não consegue registrar completamente.

“Ter acesso ilimitado a músicas, imagens e conteúdos deixou de ser o suficiente. O valor passa a estar na profundidade da experiência, na qualidade da presença e na criação de momentos que não dependem de registro ou compartilhamento digital para serem significativos”, resume Bruna Horn.

O design parece estar voltando sua atenção para uma pergunta bastante simples.

Depois de criar tantos espaços para serem vistos, talvez seja hora de voltar a pensar em como queremos nos sentir dentro deles.

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