A pascalina, criada no século 17 por Blaise Pascal, voltou ao centro do debate internacional ao ser associada tanto à origem da computação moderna quanto a uma disputa sobre preservação do patrimônio científico.
Considerada uma das primeiras tentativas de automatizar o raciocínio humano por meio de uma máquina, o dispositivo reacendeu discussões após a possibilidade de ser leiloado fora da França.
Construída em madeira e bronze, a pascalina era capaz de realizar operações de soma, subtração, multiplicação e divisão por meio de um sistema mecânico de engrenagens e rodas numeradas. O mecanismo foi desenvolvido para reduzir erros humanos em cálculos repetitivos e aliviar a carga mental de tarefas contábeis, algo especialmente relevante para a administração pública da época.
A criação da máquina está diretamente ligada à trajetória de Blaise Pascal, um dos grandes nomes da ciência moderna. Além da matemática, Pascal contribuiu para áreas como física, filosofia e literatura, sendo responsável por avanços na teoria da probabilidade, estudos sobre pressão e vácuo e reflexões filosóficas que seguem debatidas até hoje. A pascalina surgiu quando ele tinha apenas 19 anos, como uma solução prática para auxiliar o trabalho do pai na arrecadação de impostos.
Do ponto de vista histórico, o dispositivo representa um marco por antecipar conceitos fundamentais da informática, como a automação de processos e a transferência mecânica de valores entre casas decimais. O chamado “vai um”, comum na aritmética manual, foi resolvido por Pascal com uma solução engenhosa que permitia o transporte automático dos números entre as engrenagens.
Apesar do impacto intelectual, a pascalina nunca foi produzida em larga escala. O processo artesanal e o alto custo de fabricação limitaram sua disseminação, fazendo com que apenas algumas unidades fossem construídas. Ainda assim, a máquina influenciou gerações posteriores de calculadoras mecânicas e acabou se tornando referência histórica para o desenvolvimento de tecnologias de cálculo ao longo dos séculos seguintes.
Séculos depois, a relevância da pascalina foi reafirmada quando uma das poucas unidades existentes, pertencente a uma coleção privada, foi anunciada para leilão. A possibilidade de exportação do objeto gerou reação de cientistas e instituições francesas, que defenderam sua classificação como tesouro nacional, argumentando que o item é parte fundamental da história científica do país.
A disputa chegou ao campo jurídico, resultando na suspensão temporária da autorização de exportação. A decisão manteve a pascalina em território francês enquanto o caso é analisado, reforçando o entendimento de que o objeto ultrapassa o valor comercial e deve ser tratado como patrimônio histórico e científico de interesse público.
O episódio evidencia como uma invenção criada há quase quatro séculos segue relevante, não apenas como peça de museu, mas como símbolo do início da relação entre máquinas e pensamento humano, base sobre a qual se desenvolveram as tecnologias digitais que moldam o mundo contemporâneo.



