A Ford está aplicando conceitos da Fórmula 1 no desenvolvimento de sua futura picape média elétrica, primeiro modelo a ser produzido com a nova Plataforma Universal de Veículos Elétricos da marca. A estratégia combina engenharia de alto desempenho, foco em aerodinâmica e um processo acelerado de testes, inspirado na lógica das pistas: falhar rápido para evoluir mais rápido.
A aerodinâmica foi tratada como elemento central do projeto, refletindo a influência do automobilismo no time responsável pelo veículo. Mais da metade da equipe de aerodinâmica da empresa tem origem na Fórmula 1, trazendo para o ambiente industrial a cultura de obsessão por detalhes e ganhos marginais.
“Nossa equipe de aerodinâmica passou grande parte da carreira obcecada por detalhes que a maioria das pessoas não consegue ver. Quando você está buscando milissegundos em um tempo de volta, cada curva e cada milímetro importam”, diz Saleem Merkt, gerente sênior de Aerodinâmica Avançada de Veículos Elétricos da Ford. “Essa mesma obsessão nos ajudou a melhorar em mais de 15% a eficiência aerodinâmica da nova picape média elétrica comparado a qualquer outra no mercado, com maior autonomia e menor custo para os clientes.”
Túnel de vento como ferramenta de desenvolvimento
Tradicionalmente utilizado apenas na fase final de validação de design, o túnel de vento passou a integrar o projeto desde o início. A Ford inverteu o fluxo clássico de desenvolvimento e adotou uma dinâmica semelhante à de um pit stop, realizando ajustes contínuos e rápidos ao longo do processo. Essa mudança permitiu testar soluções aerodinâmicas ainda em estágio conceitual, ampliando a capacidade de refinamento antes da consolidação da engenharia final do veículo.
Construção modular e peças impressas em 3D
O protótipo foi montado com um sistema modular comparado a um “Lego”, permitindo a substituição rápida de componentes impressos em 3D e peças usinadas. Entre os itens testados estão protetores de chassi, grade frontal, suspensão e unidades de tração que ainda não existiam como protótipos funcionais completos.
“Testamos milhares de componentes impressos em 3D, incluindo versões da suspensão e das unidades de tração que ainda nem existiam como protótipos funcionais. A grande precisão dessas peças, em frações de milímetro comparado às simulações, nos permitiu desenvolver uma compreensão mais profunda das mudanças nas forças verticais, longitudinais e laterais e como cada detalhe impacta na autonomia e eficiência no mundo real”, explica Saleem Merkt.
Esse ritmo acelerado contribuiu para perseguir metas de custo, eficiência da bateria e autonomia, além de gerar dados para aprimorar a capacidade de simulação do projeto.
Ferramentas digitais e base para IA
Para lidar com o grande volume de dados gerado pelos sensores, a Ford reconstruiu seu kit de ferramentas digitais aerodinâmicas. O sistema passou a operar com fluxo contínuo de informações, visualizações personalizadas e comparação em tempo real entre dados do túnel de vento e simulações computacionais. Diferentemente da Fórmula 1, não havia restrições quanto ao tempo de processamento ou uso de supercomputadores.
“Essas ferramentas digitais fazem mais do que apenas nos acelerar – elas estabelecem a base para o futuro design impulsionado por IA”, destaca o especialista. “Elas permitem identificar exatamente as mudanças com maior impacto no custo da bateria e na autonomia, ajudando a entender o porquê por trás da física. Afinal, o ar é invisível.”
Soluções aerodinâmicas aplicadas
Entre as soluções desenvolvidas está a chamada “Superfície Virtual”. A linha do teto foi desenhada para liberar o ar em alta velocidade em perfil de gota, estendendo-se sobre a caçamba e criando uma silhueta mais aerodinâmica.
Outra alteração relevante foi o redesenho dos espelhos laterais. Ao integrar as funções de ajuste do vidro e rebatimento elétrico em um único atuador, foi possível reduzir a peça em mais de 20% e adotar formato mais eficiente, adicionando cerca de 2,4 km de autonomia.
O assoalho também recebeu tratamento semelhante ao de carros de corrida, com parafusos embutidos e chassi projetado para direcionar o ar ao redor dos pneus dianteiros e da suspensão. A gestão da turbulência permitiu ganho adicional estimado em 7,2 km de autonomia.
Diferença projetada de até 80 km
Segundo a Ford, se a picape média a gasolina mais eficiente atualmente nos Estados Unidos fosse equipada com a mesma bateria, o novo modelo elétrico apresentaria quase 80 km, ou 15% a mais de autonomia, além de melhoria de 30% em velocidade na estrada.
“Se a picape média a gasolina com aerodinâmica mais eficiente existente hoje nos EUA fosse equipada com a mesma bateria, acreditamos que a nossa nova picape elétrica teria quase 80 km, ou 15% a mais de autonomia. E uma melhoria de 30% em velocidade na estrada”, afirma Merkt.
O veículo está sendo testado em pistas e vias públicas para validar os resultados antes da produção. A proposta da marca é consolidar uma picape elétrica que combine eficiência energética, redução de custos e ganhos reais de autonomia, aplicando ao segmento a lógica competitiva e técnica herdada da Fórmula 1.



