E-commerce perde lojas e eleva nível de exigência

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O comércio eletrônico brasileiro passa por uma inflexão após anos de expansão contínua. Dados da BigDataCorp mostram que, pela primeira vez desde 2014, o número de lojas online no país encolheu, indicando uma mudança estrutural no setor. Segundo a 11ª edição do estudo Perfil do E-Commerce Brasileiro, o total de operações caiu de 2,24 milhões em 2024 para 2,1 milhões em 2026, interrompendo uma trajetória de crescimento baseada no aumento constante de novos negócios digitais.

O recuo, já observado nas duas últimas medições, é interpretado como um ajuste após um período de expansão acelerada. O ambiente se torna mais competitivo e exige maior profissionalização em áreas como tecnologia, marketing e gestão, reduzindo a sobrevivência de operações menos estruturadas. “Pela primeira vez observamos o e-commerce brasileiro deixando de crescer em volume de lojas e passando a evoluir em qualidade das operações. Isso mostra que o setor entrou definitivamente em uma fase de maturidade”, afirma Thoran Rodrigues, CEO da BigDataCorp.

Ao longo da última década, o setor também se tornou mais digital e concentrado geograficamente. A proporção de lojas com operação física caiu de 13,46% em 2016 para 6,34% em 2026, refletindo a consolidação de modelos puramente online. Ao mesmo tempo, São Paulo ampliou sua liderança e passou a concentrar 57,86% das lojas virtuais do país, seguido por Minas Gerais (6,32%) e Rio de Janeiro (6,05%). Estados do Sul também ganharam participação, enquanto outras regiões avançam de forma mais gradual.

O perfil de vendas reforça outra tendência relevante: a predominância de produtos de baixo ticket. Em 2026, 78,88% das lojas vendem principalmente itens abaixo de R$100, acima dos 75,99% registrados em 2016. Em contrapartida, operações focadas em produtos acima de R$1.000 perderam espaço, caindo de 12% para 8,66%. O movimento indica uma estratégia cada vez mais baseada em volume e recorrência, em vez de margens mais altas por item.

A atuação em marketplaces também ganhou força como parte da estratégia comercial. Em 2019, 96% das lojas não utilizavam esses canais; em 2023, esse percentual caiu para 85,18%. A presença em múltiplas plataformas cresceu rapidamente, com lojas em dois marketplaces passando de 0,43% para 8,31%, enquanto aquelas com atuação em mais de cinco ambientes chegaram a 2,31%. O avanço aponta para uma busca por maior alcance e diversificação das vendas.

Mesmo com a redução no número total de operações, o setor segue fortemente apoiado em pequenos empreendedores. Empresas com faturamento anual de até R$5 milhões representam 86% do mercado, e cerca de 74% das lojas recebem menos de 10 mil visitantes por mês, o que evidencia a predominância de negócios de nicho e altamente segmentados.

A infraestrutura tecnológica também passa por ajustes. Após atingir 14% em 2024, a hospedagem em servidores localizados no Brasil voltou a crescer, indicando uma retomada da relevância da infraestrutura nacional nas estratégias digitais. No marketing, o vídeo se consolida como principal formato: o TikTok está presente em 25% das lojas, próximo ao Instagram (27%), enquanto o YouTube aparece em mais de 30% dos e-commerces, reforçando a mudança na forma de comunicação com o consumidor.

Os indicadores de segurança mostram avanço consistente, com quase 90% das lojas utilizando certificado SSL. Por outro lado, 97% dos sites ainda apresentam falhas de acessibilidade, apontando um desafio persistente na experiência do usuário dentro do ecossistema digital. “Os dados mostram que o desafio do e-commerce brasileiro deixou de ser crescer em quantidade e passou a ser evoluir em qualidade, estrutura e governança”, conclui Thoran Rodrigues.

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