Black Friday começa meses antes para a logística

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A Black Friday acontece em novembro, mas a preparação para o período de maior movimento do varejo começa muito antes. Enquanto as empresas ainda estruturam campanhas e ofertas, fabricantes ampliam a produção, distribuidores reorganizam estoques e transportadoras trabalham na definição da capacidade necessária para absorver o aumento da demanda.

A antecipação ganhou importância à medida que a Black Friday deixou de se concentrar em uma única sexta-feira. As promoções passaram a ocupar boa parte do mês de novembro, e consumidores também começaram a aproveitar ofertas antecipadas. Para a cadeia de abastecimento, isso significa lidar com um fluxo de mercadorias mais distribuído ao longo de várias semanas.

Segundo estimativas da Associação Brasileira da Indústria, Comércio e Serviços de Tecnologia (ABIACOM), o comércio eletrônico brasileiro deve movimentar cerca de R$ 258 bilhões em 2026. As principais datas comerciais do segundo semestre devem responder por aproximadamente R$ 65 bilhões em vendas, enquanto a Black Friday deve representar cerca de R$ 14,7 bilhões.

Uma parcela desse movimento precisa ser planejada com meses de antecedência. A disponibilidade de caminhões, motoristas, centros de distribuição e equipes operacionais não pode ser ampliada de forma imediata quando o pico de pedidos já começou.

“Existe uma impressão de que a logística entra em cena quando a campanha começa. Na verdade, quando o consumidor recebe o primeiro anúncio da Black Friday, boa parte da operação já está acontecendo há semanas”, afirma Célio Martins, gerente de Novos Negócios do Transvias.

Agosto marca início de decisões sobre transporte

Para empresas que trabalham com grandes volumes, agosto pode representar o início de uma etapa importante de preparação para o período de maior demanda. É nesse momento que começam a ser revisadas previsões de vendas, contratos de transporte e posições de estoque.

“É nesse período que muitos embarcadores começam a revisar previsões de venda, negociar capacidade de transporte e reorganizar estoques. Quem deixa essa conversa para outubro normalmente encontra um mercado muito mais pressionado.”

A necessidade de antecipação está relacionada à própria capacidade disponível no setor. Conforme novembro se aproxima, mais empresas procuram espaço nas transportadoras, ao mesmo tempo em que diminui a margem para acomodar alterações de última hora.

Esse planejamento também envolve a distribuição dos produtos. O crescimento do comércio eletrônico ampliou o número de destinos atendidos pelas operações de varejo, levando mercadorias para milhares de municípios além dos grandes centros urbanos.

Com uma rede mais pulverizada, o transporte precisa considerar diferentes rotas, volumes e características de entrega. Nesse cenário, modelos como carga fracionada e redespacho ganham espaço ao permitir que diferentes cargas compartilhem uma mesma operação.

Carga fracionada ajuda a distribuir mercadorias

Na carga fracionada, diferentes embarcadores podem utilizar a mesma viagem para transportar seus produtos. A lógica permite aproveitar melhor a capacidade disponível dos veículos e reduzir quilômetros percorridos sem carga, especialmente em operações que precisam atender diversos destinos.

“Há alguns anos o foco era transportar grandes volumes. Hoje o desafio é outro: entregar mais, para mais destinos e com prazos cada vez menores. Isso exige planejamento e inteligência logística”, afirma Martins.

O comportamento das empresas também pode ser observado pela procura por serviços de transporte. Segundo levantamento do Transvias, as consultas por frete registram aumento médio de 25% entre o início de agosto e a primeira quinzena de novembro.

No mesmo intervalo, a busca especificamente por operações de carga fracionada pode crescer até 28%. O movimento indica uma necessidade maior de distribuir mercadorias e abastecer estoques menores e regionalizados conforme a Black Friday se aproxima.

Entre os segmentos que mais antecipam os embarques estão eletroeletrônicos, moda e cosméticos. A movimentação antecipada permite que produtos sejam distribuídos antes do pico de demanda, reduzindo a dependência de operações realizadas apenas quando as vendas já estão em alta.

Dados ajudam a antecipar pressão sobre a operação

A análise das consultas de frete também pode funcionar como um indicador antecipado do comportamento dos embarcadores. Antes de o aumento da demanda aparecer de forma mais intensa nas vendas, a movimentação relacionada ao transporte já pode indicar que determinados setores estão se preparando.

“Quando observamos o comportamento das consultas percebemos que muitos setores começam a se movimentar ainda no terceiro trimestre. Quem acompanha esses sinais consegue planejar melhor e evita decisões tomadas sob pressão.”

A leitura desses dados permite ajustar decisões relacionadas a estoques, capacidade de transporte e distribuição. Em um período de alta concentração de pedidos, atrasos em qualquer uma dessas etapas podem afetar a disponibilidade dos produtos e os prazos informados aos consumidores.

A logística também passou a ter impacto direto sobre a experiência de compra. Uma campanha pode gerar tráfego e conversões, mas a relação com o consumidor não termina no pagamento. A entrega dentro do prazo prometido é parte da percepção sobre a compra.

“Não adianta investir milhões em uma campanha de vendas se o produto não chega ao cliente no prazo prometido. Hoje, a logística faz parte da experiência de compra.”

Cinco pontos de atenção para a Black Friday

Esperar outubro para contratar frete
A procura por capacidade de transporte aumenta conforme novembro se aproxima. Antecipar as negociações pode ampliar as opções disponíveis para as empresas.

Trabalhar sem previsão de demanda
Histórico de vendas e comportamento dos consumidores ajudam a planejar estoques e distribuir a operação de acordo com a demanda esperada.

Concentrar tudo em um único centro de distribuição
A regionalização dos estoques pode reduzir distâncias de transporte e contribuir para o cumprimento dos prazos de entrega.

Ignorar a carga fracionada
O compartilhamento da capacidade de transporte pode aumentar o aproveitamento da frota e reduzir custos em operações com diferentes destinos.

Olhar apenas para a venda
A jornada do consumidor continua depois da compra. Problemas na entrega podem comprometer a experiência associada à campanha.

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