São Francisco, EUA – O CEO da OpenAI, Sam Altman, voltou ao palco da Dreamforce nesta terça-feira (15) para uma conversa com o CEO da Salesforce, Marc Benioff, na qual reconheceu os riscos crescentes da inteligência artificial e ao mesmo tempo defendeu que a tecnologia pode transformar a vida das pessoas como nenhuma outra antes dela.
Questionado por Benioff sobre as controvérsias recentes do setor — entre elas o ataque à plataforma Hugging Face e a pressão crescente por regulação —, Altman admitiu que já não é preciso muita imaginação para prever cenários negativos envolvendo IA. Ele classificou o episódio da Hugging Face como um incidente aterrorizante e disse esperar que nenhuma empresa do setor tenha intenção de usar seus modelos para fins nocivos.
Segundo o executivo, o temor de que poucas companhias de IA acumulem poder econômico e político demais é legítimo. “Acho que o mundo está certo em temer isso”, afirmou.
Na avaliação de Altman, acidentes são praticamente inevitáveis em qualquer tecnologia nova. Ele citou a aviação como exemplo de um setor que se tornou seguro graças à cultura de relatar falhas com transparência e à regulação de agências federais. Por isso, defendeu que as empresas de IA precisam estar dispostas a desacelerar ou até parar o desenvolvimento caso percam a capacidade de garantir segurança.
A postura mais cautelosa acompanha um movimento mais amplo entre os líderes do setor. Nos últimos dias, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, defendeu publicamente que as empresas de IA reduzam o ritmo de desenvolvimento de modelos cada vez mais poderosos — posição à qual Altman, assim como Elon Musk, passou a aderir.
Essa mesma preocupação com segurança já havia levado Altman a descartar, dias antes, uma abertura de capital da OpenAI ainda em 2026. Em entrevista à revista Fortune, ele disse que este seria “um momento pouco recomendável” para abrir o capital da empresa, dada a magnitude dos desafios de segurança que o setor enfrenta hoje.
Redes sociais como alerta
Altman também usou as redes sociais como exemplo de tecnologia que trouxe benefícios reais, mas cujos efeitos sobre a sociedade, sobretudo entre os mais jovens, nunca foram inteiramente positivos. Ele citou os vídeos curtos como um caso específico: não os considera “inerentemente maus”, mas os classificou como potencialmente perigosos, atribuindo a responsabilidade por seus efeitos a pais, empresas e governos ao mesmo tempo. O próprio executivo comentou que assiste a esse tipo de conteúdo para relaxar, mas que não deixaria os filhos fazerem o mesmo.
Apesar do tom de cautela, Altman reafirmou otimismo em relação ao futuro. Ele descreveu a IA como uma espécie de “fogo roubado dos deuses” e disse acreditar que o mundo está prestes a entrar em uma terceira onda da tecnologia — depois dos chatbots e dos agentes de codificação —, na qual sistemas de IA passarão a agir de forma proativa em nome das pessoas.
Segundo ele, a indústria “só arranhou a superfície” do que é possível construir, embora reconheça que a adoção em larga escala ainda deva levar anos, dada a inércia natural do mundo do trabalho. Altman disse manter confiança de que a humanidade seguirá sendo o centro das atenções, “não importa o que a tecnologia faça”, e que a IA pode ajudar a resolver desde a cura de doenças até o desbloqueio de uma nova onda de criatividade e empreendedorismo.
A passagem de Altman por São Francisco ocorreu no mesmo evento em que o CEO da Nvidia, Jensen Huang, e o próprio Dario Amodei, da Anthropic, expuseram visões distintas sobre os rumos da IA — sinal de que o debate sobre o ritmo e os riscos da tecnologia deve continuar dominando as conversas do setor nas próximas semanas.
* O jornalista viajou para a Dreamforce a convite da Salesforce.



