Reforma tributária lidera preocupações dos executivos no Brasil

impacto da reforma tributária nas empresas

A reforma tributária se tornou a principal preocupação externa dos executivos brasileiros para os próximos três anos. É o que aponta uma pesquisa da EY realizada com 1.988 líderes empresariais de 18 países, sendo 214 no Brasil. Entre os entrevistados brasileiros, 38% apontaram as reformas tributárias como um dos principais desafios para as empresas no período.

O percentual coloca o tema à frente de outros fatores considerados relevantes para os negócios. O cenário econômico global, as mudanças na demanda, preferências e comportamentos dos clientes e os riscos específicos de cada setor aparecem com 27% das menções cada. Na sequência estão o cenário econômico local, com 26%, a entrada de novos concorrentes e substitutos globais ou locais, com 25%, e a incerteza política local, citada por 22% dos executivos.

Para Leonardo Donato, Líder de Clientes e Indústrias da EY na América Latina, o resultado mostra que a reforma tributária passou a fazer parte das decisões estratégicas das empresas, deixando de ser uma questão restrita às áreas fiscais.

“A reforma afeta todas as empresas, mas seus impactos não serão iguais. O risco está em tratá-la apenas como uma obrigação fiscal, sem avaliar as consequências sobre precificação, contratos, créditos tributários, capital de giro, dados e arquitetura de ERP. As organizações que anteciparem essas decisões poderão proteger margens e transformar a adaptação regulatória em vantagem competitiva”, afirma o executivo.

A partir de 2026, a incorporação da CBS e do IBS às obrigações e aos documentos fiscais amplia a necessidade de coordenação entre diferentes áreas das empresas. Tax, Finanças, Comercial, Compras, Jurídico e Tecnologia passam a ter participação conjunta nas decisões relacionadas à transição, que envolvem não apenas compliance, mas também processos, contratos, sistemas e operações.

A pesquisa também mostra que a preocupação com a adaptação não está restrita ao ambiente regulatório. A entrada de novos concorrentes e substitutos aparece entre os principais desafios externos, indicando que as empresas precisam lidar simultaneamente com mudanças regulatórias, econômicas, comportamentais e competitivas.

“Embora a reforma afete todas as empresas, seus impactos serão diferentes de acordo com o setor, a cadeia de valor e a capacidade de execução de cada organização. O risco está em concentrar energia excessiva na adaptação interna e perder de vista as mudanças no comportamento dos clientes, na demanda e no ambiente competitivo”, complementa Donato.

Produtividade e crescimento no ambiente interno

Entre as principais preocupações internas das empresas brasileiras, melhorias operacionais, produtividade e custos ocupam a primeira posição, com 35% das menções. O crescimento da participação de mercado aparece em seguida, com 31%, enquanto tecnologia e transformação digital somam 29%. Estratégia e transformação de negócios têm 25%, e liquidez, gestão financeira e controle interno aparecem com 19%.

Os resultados indicam uma combinação entre busca por eficiência e necessidade de crescimento. Para Donato, o desafio está em evitar que as iniciativas de adequação e redução de custos reduzam a capacidade das empresas de investir em transformação e diferenciação.

“Eficiência e crescimento não podem ser tratados como agendas concorrentes. O foco deve migrar para a produtividade estrutural, com simplificação de processos, automação, integração de dados, gestão de fornecedores e realocação de recursos para ofertas e canais de maior retorno. Isso exige um portfólio integrado de transformação, com metas claras para margem, caixa, receita e experiência do cliente”, diz.

Tecnologia, dados e resiliência ganham espaço

A tecnologia aparece também entre as tendências consideradas mais relevantes pelos executivos brasileiros para os próximos três anos. Foco na inovação, produtividade impulsionada pela tecnologia e transformação digital acelerada empatam na liderança, com 86% das menções cada.

Cibersegurança e proteção de dados e o uso de dados como ativo transversal a toda a organização aparecem logo depois, com 79% das citações cada. A adaptação às novas regulamentações é mencionada por 75% dos entrevistados.

A expansão da transformação digital, ao mesmo tempo em que amplia possibilidades de produtividade e integração, aumenta a necessidade de estruturas voltadas à continuidade das operações e à proteção contra riscos cibernéticos. Nesse cenário, a dependência de terceiros, fornecedores críticos e plataformas conectadas passa a fazer parte da agenda de resiliência das empresas.

“Resiliência precisa ser mensurável. Planos de resposta e recuperação testados, gestão estruturada de terceiros críticos, redundância seletiva e indicadores acompanhados pelo conselho são elementos fundamentais para garantir que a transformação digital não crie novos pontos de fragilidade”, afirma.

Inteligência artificial entra na fase de escala

Entre as tecnologias consideradas disruptivas, a inteligência artificial avançada e os sistemas autônomos lideram as expectativas dos executivos brasileiros, com 89% das menções. Análise e Big Data e infraestrutura digital e edge computing aparecem com 79% cada, enquanto cibersegurança avançada e identidade digital são citadas por 71%.

Apesar da alta relevância atribuída à inteligência artificial, os níveis de adoção ainda variam entre as empresas. Segundo a pesquisa, 31% dos executivos brasileiros afirmam que suas organizações já implementaram IA em aspectos específicos do negócio. Outros 28% estão conduzindo projetos-piloto ou experimentos iniciais, enquanto 21% permanecem nas primeiras etapas de pesquisa e avaliação.

Para Donato, a próxima etapa envolve transformar iniciativas isoladas em aplicações integradas aos processos empresariais.

“Escalar IA exige muito mais do que tecnologia, depende de dados confiáveis, integração aos fluxos de trabalho, capacitação das equipes, definição clara de responsabilidades e governança adequada”, afirma.

A adoção da tecnologia também passa pela seleção de aplicações e pela definição de mecanismos de acompanhamento. Nesse contexto, indicadores de produtividade, qualidade, adoção e risco entram na avaliação dos resultados obtidos com IA.

“O avanço consistente requer escolhas. As empresas devem priorizar casos de uso com maior potencial de geração de valor, estabelecer controles para uma IA responsável e acompanhar indicadores de adoção, produtividade, qualidade e risco. A vantagem competitiva não estará apenas na adoção da tecnologia, mas em incorporá-la ao modelo operacional com velocidade, governança e resultados mensuráveis”, finaliza Donato.

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