Os smartphones com tela dobrável se consolidaram como uma das principais categorias do mercado premium de dispositivos móveis, mas essa tecnologia não surgiu de uma única descoberta. O desenvolvimento desses aparelhos foi resultado de décadas de pesquisas envolvendo telas, materiais, engenharia mecânica e processos de fabricação, reunindo contribuições de diferentes empresas até chegar aos modelos disponíveis atualmente.
De acordo com a revista Época Negócios, a base dessa evolução começou ainda na década de 1980. Em 1987, os pesquisadores Ching Wan Tang e Steven Van Slyke, da Kodak, desenvolveram a tecnologia OLED (Organic Light-Emitting Diode). Naquele momento, o objetivo era criar uma alternativa às telas tradicionais, oferecendo painéis mais finos, eficientes e com melhor qualidade de imagem. Os smartphones sequer existiam, e os telefones celulares ainda eram equipamentos grandes, caros e destinados a um público bastante restrito.
A principal diferença em relação aos painéis LCD estava na forma de funcionamento. Enquanto os displays convencionais dependiam de uma iluminação traseira para exibir imagens, os painéis OLED produziam a própria luz. Essa característica permitiu reduzir significativamente a espessura das telas e abriu novas possibilidades para o design de dispositivos eletrônicos.
Os primeiros produtos comerciais começaram a aparecer anos depois. Em 1997, a Pioneer utilizou um display OLED em um aparelho de som automotivo. Em seguida, a Kodak lançou, em 2003, a câmera digital EasyShare LS633, considerada o primeiro produto eletrônico de consumo equipado com um display OLED colorido. Poucos anos depois, em 2007, a Sony colocou no mercado sua primeira televisão com esse tipo de painel.
À medida que a tecnologia evoluía, fabricantes passaram a explorar novos formatos para os displays. A redução da espessura dos painéis levantou uma questão dentro da indústria: seria possível produzir uma tela que deixasse de ser totalmente rígida?
A busca por essa resposta levou ao desenvolvimento das telas flexíveis.
No início da década de 2010, Samsung e LG começaram a comercializar televisores com telas curvas. Pouco tempo depois, a ideia foi levada aos smartphones. Embora esses aparelhos ainda não fossem dobráveis, eles serviram como laboratório para a evolução dos processos de fabricação e para o desenvolvimento de novos materiais capazes de suportar deformações sem comprometer o funcionamento do display.
Se produzir um painel flexível já representava um obstáculo técnico, construir um celular dobrável exigia resolver outro problema igualmente complexo: a dobradiça.
Diferentemente de um smartphone convencional, um aparelho dobrável precisa de um mecanismo capaz de unir duas partes do equipamento, permitindo milhares de ciclos de abertura e fechamento sem comprometer a estrutura interna ou danificar componentes.
A primeira empresa a transformar essa ideia em um produto comercial foi a chinesa Royole, que apresentou, no fim de 2018, o FlexPai. O modelo é considerado o primeiro smartphone dobrável disponível no mercado. Apesar das limitações de software, acabamento e da dobra bastante perceptível na tela, o aparelho demonstrou que a tecnologia era viável.
A categoria ganhou maior visibilidade em 2019, quando a Samsung colocou no mercado o Galaxy Fold. Poucos dias depois, durante a Mobile World Congress (MWC), a Huawei revelou o Mate X, indicando que os principais fabricantes já disputavam espaço no novo segmento.
O início da trajetória dos dobráveis, entretanto, também evidenciou os desafios da tecnologia. Antes mesmo de chegar às lojas, o Galaxy Fold teve seu lançamento adiado após unidades de avaliação apresentarem problemas de durabilidade. O episódio mostrou que não bastava desenvolver uma tela capaz de dobrar: era necessário garantir resistência suficiente para suportar o uso cotidiano ao longo de vários anos.
Um dos principais pontos de atenção era justamente a camada de proteção da tela. As primeiras gerações utilizavam uma película plástica, mais suscetível a riscos e com acabamento diferente daquele encontrado nos smartphones tradicionais.
A evolução seguinte ocorreu em 2020, quando a Samsung passou a utilizar o UTG (Ultra Thin Glass), conhecido como vidro ultrafino, no Galaxy Z Flip. A mudança aumentou a resistência da tela e proporcionou uma superfície mais próxima da experiência oferecida pelos smartphones convencionais.
Nas gerações seguintes, a fabricante continuou aprimorando o mecanismo de dobradiça e os materiais empregados nos dispositivos, contribuindo para consolidar uma nova categoria de produtos. Outras empresas também ampliaram seus investimentos nesse segmento, entre elas Huawei, Motorola, Google e Xiaomi.
A história dos celulares dobráveis mostra que essa tecnologia não nasceu em um único laboratório nem pode ser atribuída a apenas um inventor. Ela reúne uma sequência de avanços iniciada com o desenvolvimento do OLED pela Kodak, seguida pela evolução das telas flexíveis, pelo aperfeiçoamento das dobradiças e pela adoção de materiais como o vidro ultrafino, etapas que permitiram transformar um conceito experimental em um produto comercial.



