Brasil é terceiro país com mais incidentes cibernéticos

ataques cibernéticos no Brasil

O Brasil ficou na terceira posição entre os países com maior número de incidentes cibernéticos registrados publicamente no mundo entre o quarto trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2026. O período também foi marcado pela evolução das técnicas utilizadas por grupos criminosos, com maior uso de inteligência artificial (IA), roubo de credenciais e exploração de serviços digitais legítimos.

De acordo com o mais recente Relatório de Ameaças Cibernéticas da Trellix, o Brasil respondeu por 3,45% dos casos registrados na análise global. O país ficou atrás dos Estados Unidos, com 6,8%, e da Índia, com 5,27%.

O cenário brasileiro combina ameaças tradicionais, como phishing e roubo de identidade, com métodos que tornam a identificação das atividades maliciosas mais complexa. Entre eles estão o uso de ferramentas legítimas disponíveis nos sistemas corporativos, a exploração de serviços em nuvem e a aplicação de IA para automatizar e adaptar campanhas.

Pix e roubo de credenciais entram no foco dos criminosos

No Brasil, o Pix aparece entre os elementos que vêm atraindo a atenção de grupos envolvidos em fraudes financeiras. Segundo a análise da Trellix, criminosos combinam engenharia social, phishing e roubo de credenciais para tentar obter acesso a informações e realizar operações fraudulentas.

O roubo de credenciais continua sendo um dos principais caminhos para comprometer dispositivos e contas. Entre as técnicas identificadas estão a busca por arquivos e informações armazenadas localmente, o uso de keylogging para registrar teclas digitadas, a extração de dados por canais de comando e controle e a ofuscação de comandos para dificultar a identificação de atividades suspeitas.

Outro ponto destacado no levantamento global é o uso de recursos legítimos presentes nos próprios sistemas operacionais. Entre as atividades relacionadas a ameaças persistentes avançadas, o PowerShell esteve presente em 49,6% das detecções, enquanto o Prompt de Comando do Windows apareceu em 48,9%.

A utilização dessas ferramentas permite que ações maliciosas se misturem a atividades comuns dos ambientes corporativos. Para as equipes de segurança, isso amplia a dificuldade de diferenciar uma operação legítima de uma ação executada por um invasor.

“Os cibercriminosos estão direcionando cada vez mais seus ataques ao ecossistema de identidade digital do Brasil, combinando IA, phishing e roubo de credenciais para automatizar fraudes em larga escala. As organizações precisam ir além da detecção tradicional e concentrar seus esforços em uma segurança baseada em comportamento e identidade”, afirma Rodrigo Buosi, country manager da Trellix no Brasil.

Inteligência artificial acelera as campanhas

A inteligência artificial também vem modificando a maneira como ataques cibernéticos são desenvolvidos e executados. Segundo a Trellix, grupos criminosos conseguem utilizar IA para alterar códigos maliciosos, personalizar mensagens de phishing e automatizar etapas de campanhas.

A mudança reduz o tempo necessário para desenvolver ou modificar técnicas de ataque. Em vez de depender exclusivamente de códigos estáticos, os invasores podem adaptar ferramentas e campanhas de acordo com as condições encontradas durante uma operação.

Esse movimento é abordado no estudo da Trellix sobre a chamada mercantilização do cibercrime impulsionado por IA. A tecnologia passou a ser disponibilizada como uma capacidade operacional, reduzindo as barreiras para que grupos com diferentes níveis de conhecimento técnico utilizem recursos antes associados a operações mais sofisticadas.

Para as empresas, o avanço aumenta a importância de mecanismos capazes de identificar comportamentos anômalos. Inteligência de ameaças, análise comportamental e controles que acompanhem mudanças nas atividades dos usuários passam a complementar mecanismos tradicionais baseados na identificação de códigos ou assinaturas conhecidas.

Nuvem e ferramentas legítimas dificultam detecção

Os serviços digitais legítimos também ganharam espaço nas estratégias utilizadas pelos invasores. A Trellix identifica o uso de plataformas de nuvem, ferramentas de colaboração e tecnologias de blockchain para esconder comunicações relacionadas a dispositivos comprometidos.

A estratégia aproveita a confiança que esses serviços já possuem nos ambientes corporativos. Em organizações que adotam trabalho híbrido e dependem de aplicações em nuvem, diferenciar uma comunicação maliciosa de uma atividade normal pode se tornar mais difícil.

Nesse cenário, a visibilidade sobre os ambientes de nuvem e o acompanhamento do comportamento dos usuários ganham relevância. Controles associados à identidade também podem ajudar a identificar sinais de comprometimento antes que um invasor consiga estabelecer uma presença persistente.

No primeiro trimestre de 2026, o governo representou 39% das detecções registradas pela Trellix no Brasil. Telecomunicações respondeu por 33%, enquanto instituições financeiras ficaram com 16%. Educação e serviços empresariais apareceram na sequência, ambos com 6%.

Conflitos e eleições ampliam superfície de risco

O relatório também relaciona a atividade cibernética a acontecimentos geopolíticos. Segundo a Trellix, a instabilidade observada ao longo de 2025 evoluiu para conflitos diretos entre Estados no início de 2026, aproximando operações cibernéticas, militares e diplomáticas em estratégias de guerra híbrida.

Em períodos de tensão internacional, governos e infraestruturas críticas podem se tornar alvos prioritários de grupos que atuam com objetivos estratégicos. O movimento amplia o impacto potencial de ataques para além de fraudes financeiras e crimes motivados exclusivamente por ganhos econômicos.

No Brasil, outro ponto de atenção envolve o uso de inteligência artificial durante o período eleitoral. A disponibilidade de ferramentas capazes de produzir conteúdos sintéticos realistas adiciona novas possibilidades para campanhas de desinformação e golpes de engenharia social.

“Esta será a primeira eleição presidencial brasileira em que ferramentas de IA generativa estarão amplamente acessíveis e suficientemente avançadas para criar imagens, vídeos e vozes sintéticas altamente realistas. Isso representa um novo cenário para o país e aumenta os riscos de campanhas de desinformação, golpes de engenharia social e tentativas de manipulação. Para compreender o desafio que enfrentaremos, 70% dos brasileiros acreditam que a IA pode influenciar o resultado das eleições deste ano”, explica Buosi.

Identidade e Zero Trust ganham espaço

Diante desse cenário, estratégias como inteligência operacional de ameaças, arquitetura Zero Trust, proteção de identidades e monitoramento contínuo de vulnerabilidades passam a integrar as medidas de defesa das organizações.

A adoção de agentes de IA também adiciona uma nova camada de preocupação. À medida que essas ferramentas passam a executar tarefas e acessar sistemas corporativos, as empresas precisam mapear quais informações e recursos estão disponíveis para cada agente.

A recomendação apresentada pela Trellix envolve atribuir uma identidade própria a cada agente, restringir seus acessos de acordo com a função desempenhada e manter mecanismos capazes de desativá-lo caso seja comprometido. A lógica busca limitar o alcance de uma eventual invasão e evitar que o comprometimento de um agente afete outras partes do ambiente corporativo.

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