O Pix está deixando de ser apenas uma ferramenta para transferências e ganhando espaço no momento da compra. Em 2025, foram mais de 2 bilhões de pagamentos com Pix nos pontos de venda, alta de 54% em relação ao ano anterior. No mesmo período, as transações com cartão de débito recuaram 4%, enquanto as de crédito cresceram 8%, segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026.
A evolução mostra uma mudança no papel ocupado pelo sistema de pagamentos instantâneos no mercado brasileiro. Criado em novembro de 2020 com foco principalmente em transferências entre pessoas, o Pix passou a participar de forma mais direta da relação entre consumidores e empresas.
No ano de lançamento, 85% das transações eram realizadas entre pessoas físicas. Em 2025, os pagamentos de pessoas físicas para empresas já representavam 43% das operações. A base de usuários também cresceu: mais de 170 milhões de pessoas físicas utilizam o Pix.
A movimentação financeira acompanha essa expansão. Apenas no primeiro semestre de 2026, o sistema movimentou R$ 19,8 trilhões, alta de 28% na comparação com os seis primeiros meses do ano anterior.
Aproximação e parcelamento ampliam disputa
O avanço inicial do Pix no varejo ocorreu principalmente nos pagamentos à vista. Agora, novas modalidades buscam aproximar o sistema de situações nas quais os cartões ainda apresentam vantagens para o consumidor.
Uma delas é o Pix por aproximação, que procura reproduzir a experiência de encostar um cartão na maquininha para concluir uma compra. Outra é o Pix parcelado, que incorpora uma característica tradicionalmente associada ao cartão de crédito.
Nesse modelo, o financiamento pode ser realizado pela instituição financeira, enquanto o estabelecimento recebe o valor da compra por Pix. A configuração cria uma alternativa em que o consumidor mantém a possibilidade de parcelamento sem que o comerciante precise necessariamente esperar as parcelas para receber.
O movimento amplia a área de competição entre os meios de pagamento. Se o Pix inicialmente avançou sobre as transferências e depois ganhou espaço nos pagamentos à vista, recursos como aproximação e parcelamento permitem que a modalidade alcance situações mais próximas das operações realizadas com cartões.
Pix também entra nas cobranças recorrentes
A expansão não está restrita às compras presenciais. O Pix Automático permite que o consumidor autorize previamente pagamentos recorrentes para empresas e prestadores de serviços.
A modalidade pode ser utilizada em despesas como mensalidades de escolas e academias, condomínios, assinaturas e contas de consumo. Em dezembro de 2025, o Pix Automático movimentou R$ 133,2 milhões, cinco vezes o volume registrado no mês anterior.
Embora o montante ainda seja pequeno diante do tamanho do mercado de pagamentos, a evolução indica uma mudança no alcance do sistema. O Pix passa a participar também de relações recorrentes entre consumidores, instituições financeiras e empresas, além das transferências e compras pontuais.
Débito é mais pressionado
Para Edson Vasconcelos, CEO e fundador da ecommit, a expansão do Pix não significa necessariamente o desaparecimento dos cartões. A tendência, segundo o executivo, é que os diferentes meios mantenham espaço de acordo com as funcionalidades que oferecem.
“O cenário mais provável é outro. Cada meio tende a preservar aquilo que faz melhor, enquanto o Pix amplia gradualmente seu território. O débito é hoje o mais pressionado. O crédito, protegido por parcelamento, benefícios e prazo de pagamento, ainda tem barreiras maiores. Mas a fronteira entre os dois mercados está ficando cada vez menos nítida”, diz.
A diferença de comportamento entre débito e crédito ajuda a explicar esse cenário. Enquanto o Pix já apresenta crescimento expressivo nos pontos de venda e disputa diretamente com o pagamento à vista, o cartão de crédito mantém recursos como parcelamento, benefícios e prazo de pagamento que dificultam uma substituição direta.
Ao mesmo tempo, a incorporação de novas funcionalidades pelo Pix reduz algumas dessas diferenças. A aproximação busca aproximar a experiência de pagamento, enquanto o parcelamento leva o sistema para uma característica central do crédito.
A trajetória também muda a natureza da competição no setor. O Pix não apenas ocupa espaços que já pertenciam a outros instrumentos de pagamento, mas passa a criar novas possibilidades de uso, como ocorre com o Pix Automático. A disputa, portanto, deixa de ser apenas sobre qual meio será usado para transferir ou pagar e passa a envolver diferentes etapas da jornada financeira do consumidor.



