Para o varejo, a Black Friday acontece em novembro. Para transportadoras e empresas responsáveis pelas entregas, porém, a preparação começa bem antes. Em setembro, operações logísticas já precisam definir os veículos que estarão nas ruas, homologar motoristas e revisar rotas para enfrentar o maior pico de demanda do ano.
O planejamento ganha importância diante de uma mudança no perfil do roubo de cargas no Brasil. As ocorrências não estão concentradas apenas nas grandes rodovias. Uma parcela cada vez maior dos casos acontece em áreas urbanas e na chamada última milha, quando os produtos já estão mais próximos do destino final.
O levantamento anual da NTC & Logística, divulgado em março de 2026, registrou 8.570 roubos de cargas no Brasil em 2025, uma redução de 16,7% em relação ao ano anterior. Mesmo com a queda no número de ocorrências, as perdas financeiras chegaram a aproximadamente R$ 900 milhões. Em 2024, o prejuízo estimado havia sido de R$ 1,217 bilhão.
O cenário segue relevante em 2026. Entre janeiro e maio, foram contabilizadas 3.397 ocorrências, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública compilados pelo setor. No primeiro trimestre, levantamento da nstech mostrou que a participação das áreas urbanas nos registros passou de 18,9% para 38,5%.
Para o varejo, a mudança altera a forma de pensar a segurança da operação. Com maior exposição dentro das cidades, proteger a carga deixa de significar apenas acompanhar o caminhão durante uma viagem e passa a envolver também motoristas, rotas, horários, parceiros e processos da última milha.
Dados entram na gestão da carga
Uma operação de Black Friday envolve uma cadeia extensa de profissionais e empresas. Motoristas agregados, transportadoras terceirizadas, operadores de centros de distribuição e equipes responsáveis pelas entregas podem ter contato com mercadorias e informações relacionadas a rotas, horários e destinos.
Nesse contexto, o uso de dados para gestão de risco pode ajudar a identificar pontos de maior exposição antes do aumento do volume de pedidos. Em vez de considerar somente os registros históricos de ocorrências, as empresas podem cruzar informações como tipo de mercadoria, região, horário, rota e características da operação.
A análise dessas variáveis permite identificar combinações associadas a maior risco e definir controles adicionais para determinados trajetos ou operações. A estratégia ganha relevância especialmente quando envolve cargas de maior valor ou entregas concentradas em regiões urbanas.
A antecipação também pode reduzir a pressão sobre os processos de contratação. Quanto mais próxima a Black Friday, maior tende a ser a necessidade de colocar veículos adicionais em circulação. Iniciar a preparação em setembro cria mais tempo para homologar motoristas e parceiros, sem transformar a urgência operacional em critério de seleção.
Contratação entra no planejamento
Plataformas especializadas em background check podem apoiar essa etapa ao verificar informações compatíveis com as exigências de cada função, como identidade, histórico profissional, referências, habilitações e registros necessários para o exercício da atividade.
Gustavo Sengès, Country Manager da HireRight no Brasil, explica: “o objetivo é oferecer à empresa mais informação para uma decisão de contratação, especialmente em operações nas quais o profissional terá acesso a cargas de alto valor ou informações sensíveis sobre a distribuição”.
A verificação, porém, não deve ser tratada como uma investigação ampla sobre a vida do candidato. “Background check não deve ser uma investigação irrestrita sobre a vida de uma pessoa. O ponto é verificar informações relevantes para aquela função e reduzir incertezas antes que o profissional entre na operação”, afirma.
Para Sengès, o momento em que a contratação acontece também interfere na capacidade de manter os controles. “Em períodos de alta demanda, como a Black Friday, existe uma tendência natural de acelerar processos. O problema é quando a velocidade passa a significar abrir mão de controles. A verificação preventiva ajuda a manter o padrão mesmo quando a operação está sob pressão.”
A análise de antecedentes, entretanto, não substitui outras medidas de segurança. Rastreamento, gerenciamento de risco, seguros e controles operacionais continuam fazendo parte da proteção da cadeia logística. O background check funciona como uma camada adicional antes da entrada do profissional na operação.
LGPD limita uso de informações
A utilização de informações em processos de background check também precisa considerar os limites estabelecidos pela LGPD. As empresas devem definir a finalidade da consulta, observar a necessidade das informações, utilizar uma base legal adequada e manter transparência com o indivíduo.
O acesso a dados pessoais ou informações de natureza criminal não é irrestrito. As consultas precisam ser proporcionais às atividades desempenhadas pelo profissional e respeitar as regras da jurisdição aplicável.
A preocupação com os critérios de contratação se soma aos demais pontos de controle da operação logística. Em períodos de alta concentração de pedidos, como a Black Friday, a entrada de novos motoristas, veículos e parceiros aumenta justamente quando a velocidade de atendimento passa a ser uma prioridade.
Roubo afeta mais do que o valor da carga
O impacto financeiro de uma ocorrência não se limita ao preço dos produtos roubados. Um ataque pode provocar interrupções na operação, atrasos, reentregas, substituição de veículos e acionamento de seguros, além de afetar a relação do varejista com o consumidor.
Durante a Black Friday, esse efeito pode ganhar proporções maiores pela concentração de pedidos em um intervalo curto. Uma falha na entrega não representa apenas a perda da mercadoria: também pode comprometer prazos, aumentar custos operacionais e afetar margem e reputação.



